ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 2:00:45

Após alerta na Índia, OMS monitora risco de expansão do vírus Nipah

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está monitorando o risco de expansão na Índia do vírus Nipah, um patógeno de alta letalidade para o qual não existe vacina nem tratamento antiviral específico até o momento.

O assunto voltou à tona após a confirmação de dois casos no estado de Bengala Ocidental e a declaração de um alerta epidemiológico pelas autoridades indianas.

“A Índia tem capacidade para conter esses surtos, como comprovado em casos passados”, afirmou em resposta à Agência EFE um porta-voz da agência de saúde, acrescentando que a OMS tem mantido contato com as autoridades indianas locais e nacionais para realizar uma avaliação de riscos e prestar apoio técnico.

A fonte da OMS acrescentou que, por enquanto, não há evidências de um aumento na transmissão do vírus entre humanos (outras vias de contágio comuns são através de animais, como morcegos frugívoros ou porcos, bem como por alimentos contaminados).

A infecção pelo vírus Nipah provoca desde quadros assintomáticos até doenças respiratórias agudas e encefalite letal, com uma taxa de mortalidade estimada entre 40% e 75%.

Segundo recordou a OMS, os dois casos confirmados são enfermeiros (um homem e uma mulher, ambos de 25 anos) de um hospital particular na localidade de Barasat, a cerca de 20 quilômetros ao norte de Calcutá, que começaram a apresentar sintomas na primeira semana de dezembro e foram isolados no início de janeiro.

O Instituto Nacional de Virologia da Índia confirmou que se tratava de casos do vírus Nipah em 13 de janeiro, e estes foram reportados à OMS na noite dessa segunda-feira (26), indicou o porta-voz da agência de saúde das Nações Unidas.

A confirmação dos dois casos obrigou que cerca de 190 pessoas fossem colocadas em quarentena por terem mantido contato com os infectados.

Além disso, o Ministério da Saúde indiano ordenou o reforço da segurança nos hospitais da zona afetada, impondo o uso de equipamentos de proteção individual completos para a equipe médica diante do temor de transmissão de humano para humano.

A Índia registrou seus primeiros surtos do vírus Nipah em humanos também em Bengala Ocidental (leste do país) em 2001 e 2007, quando foram registradas pelo menos 50 mortes.

Desde 2018, os casos têm se concentrado no estado meridional de Kerala, onde o surto mais recente, em julho de 2025, causou três infecções e duas mortes.

O temor da propagação do vírus se espalhou pela Ásia, levando territórios como Tailândia, Nepal e Hong Kong a ativarem pontos de triagem em alguns de seus aeroportos, com medidas como controles de temperatura e formulários de declaração de saúde.

Como é transmitido o vírus Nipah?

O vírus Nipah é transmitido aos seres humanos por animais, por alimentos contaminados ou diretamente de pessoa por pessoa, por meio de contato próximo e fluidos corporais ou gotículas respiratórias, especialmente em moradores da mesma residência e em hospitais e unidades de saúde.

Os hospedeiros naturais são morcegos da família Pteropodidae, embora outros animais, como porcos e cavalos, também possam ser infectados. Além do contato com animais infectados e seus fluidos, um dos principais riscos para a transmissão da doença para humanos se dá pelo consumo de frutas e sucos contaminados com urina ou saliva dos morcegos infectados, já que as espécies hospedeiras são frugívoras.

Quais são os sintomas do vírus Nipah?

O Nipah pode causar desde infecções assintomáticas (subclínicas) até doenças respiratórias agudas e encefalite fatal.

Entre os principais sintomas estão: febre, dor de cabeça, tosse, dor de garganta, dificuldade respiratória e vômitos. A infecção pode evoluir para encefalite com sonolência, confusão, convulsões e coma em um intervalo de 24 a 48 horas.

O vírus também pode causar doenças graves em animais, como porcos, resultando em perdas econômicas significativas.

Como a doença é tratada?

Não existem, até momento, vacinas, medicamentos ou tratamentos licenciados para a infecção pelo vírus Nipah. As pessoas devem seguir as normas de higiene das mãos, evitar contato com morcegos ou porcos doentes e seus abrigos, e evitar seiva crua de palmeiras e frutas potencialmente contaminadas.

“Uma das recomendações da OMS é para higienizar e checar as frutas, (verificar) se tem algum sinal de mordida de morcego e retirar a casca”, diz Kamilla Moraes, infectologista da UPA Vila Santa Catarina, unidade pública gerenciada pelo Einstein Hospital Israelita.

“O tratamento é só suporte para quem adquire o vírus. Não tem nenhuma medida preventiva farmacológica”, acrescenta a infectologista.

Muitos pacientes se recuperam totalmente, mas aproximadamente 20% ficam com sequelas neurológicas, como transtorno convulsivo e alterações de personalidade. Um pequeno número de pacientes sofre recaídas ou desenvolve encefalite de início tardio.

Qual é o histórico de casos no mundo?

A doença já provocou surtos em diversos países asiáticos ao longo dos anos e foi alvo de medidas de contenção na Índia. Em 2024, um adolescente de 14 anos faleceu após contrair a doença.

Durante o primeiro surto reconhecido na Malásia, que também afetou Singapura, a maioria das infecções humanas resultou do contato direto com porcos doentes ou seus tecidos contaminados. Acredita-se que a transmissão tenha ocorrido por meio da exposição desprotegida às secreções dos porcos ou ao tecido de um animal doente, segundo informações da OMS.

Em surtos subsequentes em Bangladesh e na Índia, o consumo de frutas ou produtos derivados de frutas contaminados com urina ou saliva de morcegos frugívoros infectados foi a fonte mais provável de infecção.

A transmissão do vírus Nipah entre seres humanos também foi relatada entre familiares e cuidadores de pacientes infectados.

É possível que o vírus chegue ao Brasil?

Segundo Kamilla, existe uma preocupação em relação a surtos e disseminação mundial de infecções por conta da globalização, mas, no Brasil, não houve nenhum caso registrado de infecção pelo vírus.

Para ela, o momento é de atenção às medidas que serão tomadas pelas autoridades sanitárias, mas não há motivo para alarme. “No Brasil, não há nenhum alerta, mas é um momento de atenção”.

Fontes: Agência EFE, Gazeta do Povo e Estadão

 

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