Da redação, AJN1
A cadeia produtiva do fruto da mangabeira, considerada espécie símbolo de Sergipe, está ameaçada pela dinâmica das questões socioeconômicas e ambientais. Esse cenário foi investigado e constatado por Débora Oliveira, em sua tese de doutorado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
De acordo com Débora, nos últimos anos, a sustentabilidade de produção tem sido comprometida por uma série de fatores, principalmente a expansão imobiliária e de empreendimentos turísticos desordenados. Sergipe, que já foi o maior produtor do fruto, foi superado pela Paraíba (veja infográfico).

Conforme estudo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) já havia traçado, em 2017, um mapa do extrativismo da mangaba no estado. Ele mostra uma redução das áreas naturais de ocorrência de mangabeiras de 10.456 ha (29,6%), nos municípios de Barra dos Coqueiros, Estância, Indiaroba, Itaporanga d´Ajuda, Japaratuba, Japoatã, Pacatuba, Pirambu e Santa Luzia do Itanhy, no período de 2010 a 2016.
Os desmatamentos na região do bioma Mata Atlântica trouxeram riscos a biodiversidade existente, o que foi confirmado por Débora. “Há um forte agravante: as áreas naturais de ocorrência da mangaba, que estão localizadas no litoral sergipano, estão sendo desmatadas para expansão imobiliária e também turismo (empreendimentos hoteleiros e segunda residência), além de outros usos do solo que substituem a vegetação nativa”, conta a pesquisadora.
Débora afirma que a sustentabilidade, porém, não é avaliada somente do ponto de vista econômico ou ambiental, há também questões culturais e territoriais. Por isso, para entender como a atual dinâmica e inter-relações do fluxo de comercialização da mangaba afetam a sustentabilidade da cadeia produtiva do fruto, Débora conversou com vários atores sociais envolvidos. Além dos extrativistas, falou com feirantes, donos de terra, proprietários de indústrias e atravessadores, para saber a opinião de todos.
As entrevistas, que envolveram seis aspectos da cadeia produtiva da mangaba, demonstraram que ela está insustentável. “Primeiro, devido ao elevado número de pontos críticos e por que, de seis aspectos avaliados, quatro estavam na Zona de Ação Urgente [estágio crítico] e dois na zona de melhoramento [abaixo da situação adequada]. Nenhum estava em uma Zona adequada – segundo a metodologia utilizada para avaliar a sustentabilidade”, explica a pesquisadora.
A pesquisa revela ainda que a cadeia produtiva da mangaba em Sergipe tem as características de um Complexo Agroextrativista. Para Débora, após os resultados da pesquisa, foi possível verificar que ela deixou de ser apenas uma cadeia extrativista tradicional – que é quando a pessoa tira o fruto da floresta e vende sem beneficiá-lo – para conter elementos também de uma cadeia industrial, em que os frutos são beneficiados tanto pelos extrativistas quanto por indústrias.
“Ou seja, está no meio termo, junta aspectos da cadeia tradicional com o da cadeia industrial. Portanto, possui particularidades complexas que precisam ser analisadas caso a caso para que a sustentabilidade seja alcançada”, reforça Débora.
Onde encontrar
A mangabeira pode ser encontrada em quase todo o país, das zonas costeiras ao cerrado. A mangaba pode ser usada na produção de sucos, bolos, biscoitos, polpas e sorvetes. Em Sergipe, de acordo com os dados do mapa elaborado pela Embrapa, as áreas naturais de mangabeiras estão situadas ao longo do litoral do estado.
A colheita do fruto, no entanto, é feita predominantemente de modo extrativista, ou seja, o fruto é retirado das árvores que nascem e crescem de forma espontânea na mata. Em Sergipe, existem algumas iniciativas isoladas de plantio da mangaba, mas a quantidade cultivada é pouco representativa na produção estadual.
Na opinião de Débora, quando o mercado começa a demandar muito um produto de origem predominantemente extrativista, o seu estoque natural pode acabar.
Essa preocupação não é à toa. Sergipe, que ocupou nove vezes a primeira posição como maior produtor de mangaba do Brasil nos últimos 10 anos, tem sofrido uma queda na sua produção. Conforme o Panorama do Extrativismo Vegetal e da Silvicultura (PEVS), publicado pelo IBGE (2007-2016), em 2007 foram extraídas 436 toneladas do produto, e em 2016 o número foi reduzido para 190 toneladas.
Esse número pode estar subestimado, de acordo com a pesquisa de Débora. Ela traz dados que indicam que há, pelo menos, 1.628 famílias extrativistas em Sergipe. Essas famílias colhem, segundo outra fonte analisada por ela, 100 a 220 quilos de mangabas por mês, o que superaria bastante o levantamento do PEVS – podendo superar mil ou até duas mil toneladas ao ano.
“Não é que vai acabar hoje, mas se não houver uma política de apoio e ordenamento desse tipo de atividade – tanto o extrativismo quanto o plantio do fruto – a mangabeira vai estar fadada a se esgotar ao longo do tempo”, diz Débora.
A tese está disponível no Repositório Institucional da UFS. Para baixá-la, clique aqui.







