Dois milhões e meio de pessoas tomaram as ruas do centro de Belém neste domingo (9), segundo a Secretaria de Segurança Pública do Pará. A grande procissão do Círio 2022 voltou a promover romarias presenciais depois de dois anos de pandemia, quando não houve procissão oficial na festa católica.
Com o tema “Maria, Mãe e Mestra”, a 230ª edição do Círio de Nazaré homenageou a padroeira da Amazônia. Entre os promesseiros, pescador usou roupa com 200 caranguejos vivos e uma professora carregou cruz em agradecimento à saúde da mãe.
Foram mais de cinco horas de romaria, num percurso de 3,600 km. A romaria saiu, às 7h10, da Catedral de Belém, após missa celebrada por Dom Alberto Taveira Corrêa, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará.
A procissão seguiu rumo à Basílica Santuário, erguida no mesmo local em que a Imagem foi achada em 1700, pelo caboclo Plácido. Percorreu o Centro Histórico de Belém e alguns dos principais monumentos representativos da história da cidade, como o Ver-o-Peso, Estação das Docas, Praça da República, entre outros.
Às 12h20, a berlinda chegou à Praça Santuário, ocorreu a missa de encerramento da grande procissão, celebrada por Dom Antônio de Assis Ribeiro, Bispo Auxiliar de Belém do Pará .
Este ano, pela primeira vez nas ruas, esteve o Carro da Saúde. O novo símbolo foi criado em 2021, para homenagear o padre Santo Antônio Maria Zaccaria, que além de religioso, era também médico e dedicou-se a salvar vidas e, principalmente, um agradecimento aos profissionais de saúde que se dedicaram com tanto empenho no combate à pandemia. “Esse foi o nosso modo de dizer muito obrigado”, diz Antônio Salame.
Com a inclusão, a festa, que desde 2014 tem o certificado de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), passa a ter agora 14 carros.
Integram o conjunto de carros do Círio de Nazaré, além da Berlinda: Carro de Plácido, Barca da Guarda Mirim, Barca Nova, Cesto de Promessas, Barca com Velas, Barca Portuguesa, Barca com Remos, Carro Dom Fuas e Carro da Sagrada Família, os quatro Carros dos Anjos, que são conduzidos pela Catequese da Basílica Santuário de Nazaré, e o Carro da Saúde.
Ícones de fé
Muitos devotos veem no Círio a oportunidade de agradecer por graças alcançadas, como Agostinho Pires, que fez uma promessa pela saúde do filho, que nasceu prematuro de 6 meses e com sopro no coração.
Atualmente, o pequeno Gustavo tem 1 ano e muita saúde, segundo o pai. Vestido de anjo, a criança acompanhou o pai na procissão.
“Fizemos uma promessa para Nossa Senhora de Nazaré e, graças a Deus, ele está curado. Ele nasceu com sopro no coração, mas ele tá com muita saúde”, afirmou.
Alguns promesseiros chamaram atenção até de outros devotos durante a procissão. O pescador Raimundo Santos fez o trajeto vestindo uma “roupa de caranguejos vivos”.
Ele acredita que o item pesa cerca de 90 quilos. A promessa foi feita em 1995 e ele já se vestiu da mesma maneira para agradecer a graça alcançada ainda na década de 90.
“O meu garoto estava com dificuldade de nascer. Eu já paguei a minha promessa, agora eu vim agradecer. Agora o garoto está vivo com saúde. Enfermeiro ele, virou enfermeiro. Ele cuida de pessoas. O bem chamando o outro bem”, contou.
O subtenente do Corpo de Bombeiros Militar do Pará, Nilson Amaral, percorreu a avenida Nazaré carregando uma cruz formada por extintores de incêndio. Ele carregou o item com cerca de 30 quilos para pagar a uma promessa feita pela saúde de um familiar.
A professora Débora Rodrigues carregou uma cruz da Catedral da Sé até a Basílica de Nazaré para agradecer a recuperação da mãe, que durante o alto na pandemia ficou internada por 35 de um mês na UTI com Covid.
“A minha mãe contraiu Covid-19 e já estava desenganada pelos médicos, com 100% dos pulmões comprometidos, ela é diabética. Aí eu fiz uma promessa pra Nossa Senhora de Nazaré, disse que eu iria trazer uma cruz durante 3 anos se a minha mãe recebesse uma cura. Essa cura foi dada. O médico não acreditou e foi no dia que eu falei que ela iria sair”, afirmou.
Este ano, é a segunda vez que ela carrega a cruz pagando promessa pela saúde da mãe e também pedindo pela saúde de um amigo. Em 2021, mesmo sem o Círio oficial, ela também carregou a cruz.
“Neste ano, a promessa foi dupla, pois tenho um amigo que foi meu professor e depois fui chefe dele. Ele está com leucemia. Pedi pra Nossa Senhora de Nazaré interceder por ele nesse processo de cura”.
O programador Mário Torres participa do seu 20º Círio e desta vez foi na corda pedindo pela saúde da afilhada. “Ela tem 5 anos e vai precisar passar por cirurgias e estou agradecendo também. Como para todo paraense, é um momento único. A gente se trata aqui como uma grande família, é uma vez ao ano, mas é como família”.
Com tantas pesssoas nas ruas, havia quem jogava água sobre os fiéis, principalmente quem estava próximo da cordam para ajudar a amenizar o calor. Muitos copos plásticos e garrafas de água foram nas ruas e também fitas de decoração. Um grupo de voluntários se reuniu para limpar as ruas. Eles fazem isso em todo Círio, segundo a coordenadora do EcoCírio, Ana Rita.
“Fazemos a conscientização das pessoas e colocamos ecopontos para as pessoas descartarem os resíduos recicláveis, como copinhos e garrafinhas de água. Além disso, a gente fez a limpeza de toda a praça pra receber a imagem da santa e trazer um pouco dessa compreensão sobre o meio ambiente e recolher o plástico que sai de toda a produção”, detalha.
Como a limpeza na rua segue também por agentes da prefeitura, ainda não há balanço da quantidade de lixo.
História
Relatos apontam que o caboclo Plácido encontrou a imagem de Nossa Senhora em uma bifurcação de um taperebazeiro (árvore do taperebá). Ele a levara para sua casa e a colocara em um pequeno altar de miriti, onde estavam um crucifixo e outras imagens de santos de sua devoção. No dia seguinte, a imagem teria sumido. Ao retornar ao local do achado, percebeu que ela se encontrava no mesmo lugar do dia anterior.
O fato repetiu-se durante alguns dias e a notícia do “desaparecimento” se espalhou, provocando a intervenção das autoridades civis e eclesiásticas, fazendo com que fosse levada para o Palácio do Governo, para o Paço Episcopal e à recém-erguida Catedral, de onde ela também sumiu, sendo encontrada no mesmo local de origem. Por conta dos desaparecimentos, Plácido teria entendido que a imagem deveria ficar no local onde fora encontrada e ali construiu uma ermida para abrigá-la. O local do achado é onde hoje se encontra a majestosa Basílica Santuário.
Atualmente a Imagem Original permanece o ano todo no Glória, na Basílica Santuário, estando próxima dos devotos em maio e outubro, e uma outra Imagem, chamada Peregrina, participa de todas as festividades do Círio. Desde quando a Imagem Original foi entronizada no Glória, outra imagem, pertencente ao Colégio Gentil Bittencourt, passou a substituí-la nas romarias até 1969, quando foi confeccionada a Imagem Peregrina, que até hoje segue nas 13 romarias e visitas oficiais. A imagem possui status de Chefe de Estado, conferido por uma lei estadual paraense.
Fonte: G1







