Presente em celulares, carros, satélites, eletrodomésticos, brinquedos e até em armas de guerra, o chip eletrônico é o cérebro silencioso que sustenta a vida digital contemporânea — e também um dos ativos mais estratégicos da economia global atual.
Pequeno dispositivo feito geralmente de silício, ele reúne milhões de componentes eletrônicos microscópicos em uma única peça. Esses componentes funcionam como minúsculos interruptores que controlam o fluxo de eletricidade e que, ao ligar e desligar, permitem que dispositivos eletrônicos processem informações, façam cálculos e executem programas.
O chip é uma invenção fundamental, mas que existe há apenas 68 anos. Contudo, o caminho que levou até ela começou bem antes. Nos anos 1940, os computadores ocupavam salas inteiras e utilizavam milhares de válvulas eletrônicas, que funcionavam como interruptores elétricos, controlando o fluxo de corrente para executar cálculos.
O problema é que as máquinas, além de serem enormes, consumiam muita energia, geravam calor e queimavam com frequência. A grande virada ocorreu em 1947, quando pesquisadores do Bell Labs inventaram o transistor, um pequeno dispositivo semicondutor capaz de substituir as válvulas, que era mais eficiente e muito mais confiável.
Apesar disso, os computadores continuavam sendo montados com milhares de transistores individuais conectados manualmente. Tudo mudou em 1958, quando o engenheiro Jack Kilby, da empresa Texas Instruments, dos Estados Unidos, construiu o primeiro circuito integrado funcional.
O protótipo era uma pequena tira de germânio (aproximadamente 1,11 cm x 0,16 cm) que integrava transistores, resistores e capacitores em um único pedaço de material semicondutor.
Logo em seguida, em 1959, Robert Noyce, da Fairchild Semiconductor, desenvolveu uma versão mais prática usando silício — base da tecnologia moderna — e técnicas de fabricação que tornariam possível produzir chips em escala industrial.
“Nos anos seguintes, a indústria de semicondutores cresceu rapidamente. Tivemos o boom da microeletrônica, que deu origem a toda a computação moderna”, diz Claudio Miceli de Farias, professor do Núcleo de Computação Eletrônica do Instituto Tércio Pacitti de Aplicações e Pesquisas Computacionais (NCE) e do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ele acrescenta que, na década de 1970, a Intel revolucionou o mercado com o lançamento do Intel 4004, o primeiro microprocessador comercial em um único chip do mundo que permitiu a construção de computadores muito menores e mais baratos. “Isso deu origem a uma série de outros desenvolvimentos ao longo dos anos”, salienta.
Inclusive, Gordon Moore, cofundador da Intel, fez uma observação que se tornaria uma das mais famosas da tecnologia: a Lei de Moore, prevendo que o número de transistores em um chip dobraria aproximadamente a cada dois anos, aumentando exponencialmente o poder de processamento.
Esse movimento permitiu avanços gigantescos. Por exemplo, computadores pessoais nos anos 1980; laptops nos anos 1990, smartphones nos anos 2000 e inteligência artificial e computação em nuvem nos anos 2010.
Indústria global dos semicondutores
Hoje, a produção de chips envolve uma cadeia global extremamente especializada, e tem como alguns de seus principais expoentes as empresas TSMC (Taiwan), Nvidia (Estados Unidos) e Samsung (Coreia do Sul), além da Intel (Estados Unidos).
Trata-se de uma indústria que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano — em 2025, as vendas atingiram US$ 791,7 bilhões e, para este ano, a previsão é de US$ 1 trilhão, segundo a Associação da Indústria de Semicondutores — e que se tornou estratégica para governos.
“Na década de 2020, entendemos que o desenvolvimento de chips é estratégico não só para o desenvolvimento tecnológico, mas também para a defesa. É uma questão de soberania. Um país tem que ser capaz de produzir tanto o seu alimento quanto o seu insumo tecnológico”, afirma Farias.
Ele continua: “O chip é um elemento de transformação extremamente importante e crucial na nossa sociedade. Quem domina essa tecnologia, como China, Taiwan e Estados Unidos, domina os paradigmas”.
Isso se torna ainda mais importante, levando em conta o momento atual de escassez de chips. Durante a pandemia de covid-19, interrupções na cadeia de suprimentos, aumento da demanda por eletrônicos e gargalos logísticos reduziram drasticamente a oferta desses componentes.
O resultado foi sentido em diversos setores da economia: montadoras chegaram a paralisar linhas de produção, fabricantes de eletrônicos atrasaram lançamentos e até indústrias de eletrodomésticos enfrentaram dificuldades para manter o ritmo de produção.
A pressão sobre a oferta de semicondutores também vem sendo alimentada pela explosão da inteligência artificial. Com empresas de tecnologia e governos ampliando rapidamente seus investimentos em IA, a demanda por esses componentes cresceu em ritmo mais rápido do que a capacidade de produção das fábricas.
“Só deverá haver melhoria nesse processo no final do ano que vem. E os preços dos chips, que vinham barateando nos últimos anos, agora estão subindo. Com isso, a tendência é que os produtos, como computadores, tablets e celulares, fiquem mais caros para os consumidores”, completa o professor da UFRJ.
Fonte: Época Negócios







