O drink do happy hour deixou de ser um momento para relaxar e passou a ser motivo de preocupação. Nas últimas semanas, o país registrou uma onda de intoxicações causadas por bebidas adulteradas com metanol. O Ministério da Saúde já contabiliza 225 notificações de suspeita de envenenamento, com 15 mortes em investigação. O álcool adulterado tem causado cegueira e até morte em poucas horas, mas o médico e comunicador de saúde Rodrigo Schröder alerta que o perigo real vai além do metanol.
“O metanol é um tipo de álcool usado na indústria como solvente e combustível, não para consumo humano”, explica Schröder. “O grande perigo é que, dentro do organismo, ele se transforma em substâncias altamente tóxicas, formaldeído e ácido fórmico, que atacam o sistema nervoso, o fígado e principalmente o nervo óptico.”
Os primeiros sintomas não são imediatos, o que torna o diagnóstico ainda mais difícil. “Existe um período de latência que pode durar de seis a 24 horas, às vezes até mais, se a pessoa também ingeriu etanol junto. Depois disso, surgem náuseas, vômitos, dor abdominal, falta de ar e, o mais característico, alterações na visão: borramento, manchas ou perda visual súbita. Esses sinais devem ser considerados uma emergência médica.”
Muito pior do que uma simples ressaca
A confusão entre intoxicação por metanol e uma simples ressaca é comum e perigosa. Segundo o especialista, a diferença entre as duas condições é brutal. “A ressaca comum é desconfortável, mas passageira: dor de cabeça, náusea, desidratação. Já a intoxicação por metanol causa uma acidose metabólica grave e alterações neurológicas, podendo deixar sequelas permanentes ou levar ao óbito. Não se trata de uma ressaca mais forte, é um quadro de intoxicação letal.”
Em casos suspeitos, o tempo é determinante. “O correto é ligar imediatamente para o SAMU ou levar a pessoa ao pronto-socorro. Não adianta esperar melhorar em casa. Se possível, leve a embalagem da bebida junto, para que os médicos possam identificar a substância. O tratamento envolve antídotos específicos, correção da acidose e, em casos graves, hemodiálise.”
Etanol: menos urgente, mas nada seguro
O problema é que, enquanto o metanol expõe um risco visível, o etanol, ou seja, o álcool presente nas bebidas legalizadas, provoca danos silenciosos e cumulativos, mas não menos sérios.
De acordo com Schröder, os efeitos do consumo de álcool vão muito além da ressaca. “No curto prazo, o álcool está associado a acidentes de trânsito, agressões, arritmias e pancreatite aguda. No longo prazo, aumenta o risco de dependência, cirrose, câncer de mama, fígado, esôfago, colorretal, hipertensão, AVC e até demência. O impacto do álcool vai muito além da ressaca: é uma das principais causas evitáveis de morte no mundo.”
Mesmo em pequenas quantidades, os riscos existem. “É um mito acreditar que há uma dose segura. Hoje já existe consenso de que não há quantidade totalmente isenta de risco, principalmente em relação ao câncer. O que existem são limites de baixo risco, que ajudam a reduzir danos, mas risco zero não existe. A cada dose, o risco aumenta.”
A Organização Mundial da Saúde classifica o álcool como carcinógeno do grupo 1, a mesma categoria do cigarro. “O álcool é culturalmente aceito, mas biologicamente tóxico”, reforça o médico.
Sintomas de que está na hora de parar
O corpo costuma avisar quando está sobrecarregado, mas os sinais são sutis. “Cansaço excessivo, perda de memória, alterações no sono, tremores matinais, pressão alta, queda da libido e aumento das enzimas hepáticas e dos triglicerídeos são indícios claros de que o organismo está sofrendo. Muitas vezes o corpo dá sinais, mas as pessoas os ignoram até que o dano seja avançado.”
A banalização do consumo e os mitos populares sobre “curar a ressaca” também agravam o problema. “Café não cura ressaca, só disfarça sintomas. Comer gordura antes de beber não protege o fígado, apenas retarda a absorção. ‘Beber pouco não faz mal’ é enganoso, porque qualquer quantidade tem impacto. E o famoso ‘um golinho no dia seguinte’ só mascara sintomas e reforça a dependência.”
Para quem não abre mão do brinde do fim de semana, o ideal é minimizar os danos. “A primeira recomendação é nunca consumir bebidas sem procedência, principalmente diante dos casos recentes de adulteração com metanol. Além disso, limite o número de doses, intercale água, coma antes e durante, evite misturar com energéticos, nunca dirija após beber e saiba reconhecer sinais de alerta como alterações visuais ou respiração anormal. A melhor estratégia de saúde é a moderação consciente e lembrar que risco zero só existe sem álcool.”







