ÚLTIMAS PALAVRAS - 04/07/2019 - 15:56

Empresário chamou o governador de “mentiroso” antes de cometer suicídio

Sadi Gitz | Foto: Divulgação

Da redação, Joangelo Custódio

Antes de apertar o gatinho e atirar contra a própria cabeça durante concorrido seminário sobre o futuro da exploração do gás natural em Sergipe e no Brasil, ocorrido num hotel na Orla de Atalaia, o empresário Sadi Paulo Castiel Gitz, de 70 anos —, que era proprietário da cerâmica Escurial, indústria a qual estava em processo de hibernação por problemas econômicos —, se dirigiu ao governador Belivaldo Chagas, que acabara de fazer o seu discurso diante do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e, numa espécie de protesto, bramiu: “O senhor é mentiroso”.

As últimas palavras, endereçadas ao governador, foram dissuadidas pelo estampido do revólver .38, que tirara a vida do empresário gaúcho, cujas raízes foram fincadas em Sergipe desde a década de 80. Quanto aos participantes do seminário, o sentimento era um só: perplexidade.  

O que teria motivado?

Sabe-se pouco sobre o real estado de saúde mental do empresário Sadi Gitz. O que não andava bem era a situação financeira da sua indústria de cerâmica, a Escurial, que entrou em processo de hibernação.

O motivo para fechar as portas de sua fábrica, inaugurada na década de 90 , segundo o próprio Sadi, em nota publicada em maio, foi o elevado preço do gás cobrado pela concessionária Sergas, mantida pelo governo do Estado. A Sergas, inclusive, suspendeu o fornecimento de gás à indústria. Com isso, mais de 600 trabalhadores foram dispensados e o fechamento total da fábrica era questão de tempo.

“Nenhuma empresa ou empresário tem satisfação em hibernar, mudar ou relocar uma Unidade, mas as condições operacionais só existem se houver uma política real de fomento à atividade produtiva”, disse Sadi no último mês de maio.

Na mesma época, a Sergas rebateu a nota do empresário. “A Sergas gostaria de esclarecer que a suspensão do fornecimento de gás da Escurial ocorreu devido a falta de pagamento das faturas mensais, diferente do acordado em contrato estabelecido e em conformidade com o acordo de recuperação judicial vigente. A Sergipe Gás S/A forneceu gás natural à Cerâmica Sergipe Ltda e os gestores da Escurial não arcaram com a responsabilidade acordada, deixando de pagar e devendo o equivalente a mais de 100 dias do seu consumo diário.”

Segundo pessoas próximas ao empresário, uma das hipóteses levantadas para justificar o suicídio seria depressão, em virtude do fechamento da fábrica.

Mas essa resposta ninguém tem, foi levada com Sadi.

O que diz Belivaldo

Sobre as últimas palavras de Sadi, afirmando que o governador é “mentiroso”, Belivaldo disse, de forma fria e tranquila, que “lamenta” o ocorrido e é “vida que segue”.

“Ele vinha conversando com a Sergas e lamentavelmente, num momento de fraqueza, ele comete suicídio. Eu quero lamentar, prestar solidariedade à família, porque não é fácil receber uma notícia dessas, mas a vida segue. Nós, por conta disso, cancelos o evento, seria até um desrespeito a ele mesmo a gente manter esse evento, um evento importante para Sergipe e para o Brasil. Ele alega o fato de dificuldades com relação ao preço praticado pela Sergas, a Sergas ela pratica o preço da Petrobras. Naturalmente ele misturou as coisas, a situação financeira pelo qual ele estava passando e num momento de fraqueza dele. A gente registra como um fato lamentável”, destacou o governador.