Os recentes casos de feminicídios registrados no Brasil e, em especial em Sergipe, reacendeu o debate em todo do tema e, principalmente, sobre o que tem sido feito para combater este tipo de crime e como proteger a mulher. Este março de 2026, mês dedicado à reflexão sobre os direitos das mulheres, tem sido marcado por muitos casos de violência. Uma das questões no centro dos debates é a efetividade das medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. Criadas para garantir a segurança de vítimas de violência doméstica, essas medidas são consideradas um dos principais instrumentos legais de proteção às mulheres no Brasil. Mas, diante do aumento de casos de violência registrados muitas pessoas se perguntam: elas realmente funcionam? Entrevistamos o advogado e professor do curso de Direito da Estácio, Joviano de Sousa Silva. Ele diz que é preciso analisar a questão com cautela. Para ele, a sensação de ineficácia pode surgir diante da visibilidade crescente dos casos de violência, mas isso não significa que os mecanismos legais deixaram de produzir efeitos. Ele ressalta que um ponto importante que muitas vítimas ainda desconhecem é que não existe um prazo máximo para solicitar a Medida Protetiva. Ele também fala sobre o movimento naofiquecalado.com.br que tem por objetivo levar informações relevantes para que todas as pessoas saibam como identificar e denunciar a violência doméstica. Confira a seguir:
– O senhor pode explicar o que é uma medida protetiva?
Joviano de Sousa Silva – As medidas protetivas são decisões judiciais que podem determinar, por exemplo, o afastamento do agressor do lar, a proibição de contato com a vítima e familiares, além de restrições de aproximação.
– Como a mulher pode solicitar uma Medida Protetiva?
Joviano – Elas podem ser solicitadas pela mulher diretamente em uma delegacia ou por meio do Judiciário, sem a necessidade inicial de um advogado.
– Em que momento a vítima pode solicitar uma Medida Protetiva. Tem que ser imediatamente após uma agressão?
Joviano – Não há um prazo pré definido para solicitar uma medida protetiva. A violência doméstica é uma situação complexa e delicada, e o mais importante é que a mulher busque ajuda assim que perceber sinais de risco.
– Sabe-se que a violência doméstica nem sempre começa com agressões físicas. Em muitos casos, ela surge de forma gradual, com comportamentos que acabam sendo naturalizados dentro da relação. Que conselho o senhor dá para uma mulher que esteja em uma situação de violência?
Joviano – Não se deve esperar a primeira agressão física para denunciar. Muitas vezes a violência começa com agressões psicológicas, ameaças ou controle financeiro, numa tentativa de dominar a rotina da mulher. Esses fatores já são motivos suficientes para a busca de proteção.
– O senhor avalia a Medida Protetiva como eficaz?
Joviano – É inegável que, frente à crescente violência observada recentemente, pode parecer que os esforços são insuficientes. Contudo, essa percepção não reflete a totalidade da situação.
– Em sua percepção, qual o principal desafio que a vítima de violência doméstica enfrenta?
Joviano – Um dos desafios ainda presentes é a vulnerabilidade emocional e econômica de muitas vítimas, que acabam permanecendo em relações violentas por dependência financeira ou pela tentativa de preservar a imagem familiar. Em algumas situações, a mulher pode preferir suportar a violência, justificando-a com a ajuda financeira do parceiro ou com a imagem de um bom pai. Mas é fundamental reforçar que nenhuma justificativa valida qualquer ato de violência.
– Apesar dos avanços na legislação e na estrutura de atendimento, especialistas reforçam que o enfrentamento à violência doméstica depende também de informação e encorajamento para que as vítimas busquem ajuda. Como interromper o ciclo de violência?
Joviano – Embora a persistência da violência possa gerar a sensação de que os esforços não estão funcionando, a realidade é mais complexa. O acesso à informação e aos mecanismos de proteção é um passo fundamental para interromper o ciclo de violência.
– O senhor pode explicar o movimento naofiquecalado.com.br?
Joviano – O movimento naofiquecalado.com.br tem o objetivo de trazer informações relevantes para que todas as pessoas saibam como identificar e denunciar a violência doméstica. Além da cartilha virtual destinada ao público feminino, no site, é possível encontrar todos os campi da Estácio que oferecem orientações jurídicas e acolhimento psicológico gratuitos às mulheres e comunidade como um todo. O público masculino também é convidado a participar da ação. Uma versão da cartilha virtual, preparada especificamente para a conscientização masculina, está disponível para os homens. O documento traz diversas informações sobre violência de gênero e sobre como os homens podem entrar neste jogo em defesa das mulheres.







