Amsterdã, 12 de junho de 1942. Anne Frank acorda ansiosa porque era o dia do seu aniversário de 13 anos – e ela não comemorava havia dois anos (em 1940 porque “as lutas mal haviam terminado na Holanda”, que havia se rendido aos alemães, dando início à ocupação nazista; em 1941, porque sua avó precisou ser operada). As coisas não estavam especialmente melhores naquele fim de primavera, e, ela não sabia, ainda piorariam muito. Mas naquele dia, há exatos 80 anos, a casa amanheceu alegre, com pacotes, flores e biscoitos, e no domingo haveria festa.
O presente mais especial daquele ano, e que faria esta adolescente nascida na Alemanha em 1929 ser conhecida no mundo inteiro, foi o diário que ela ganhou de seu pai Otto. “Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda”, Anne Frank escreveu em sua primeira página.
Mais adiante, ela comenta que passou uns dias sem voltar a ele porque, antes de tudo, queria pensar sobre o diário. “Ter um diário é uma experiência realmente estranha para uma pessoa como eu. Não somente porque nunca escrevi nada antes, mas também porque acho que mais tarde ninguém se interessará, nem mesmo eu, pelos pensamentos de uma garota de 13 anos”, lemos na página preenchida no dia 20 de junho. Ela se sentia sozinha, queria ter uma amiga, e disse que depositaria em Kitty, nome que deu ao caderno com capa xadrez vermelha, tudo o que estava “preso” em seu peito.
Mas o que seria um simples confidente, um caderno desses que as meninas fecham a sete chaves e depois esquecem numa caixa ou jogam no lixo, se tornou um dos principais documentos do Holocausto.
Recapitulando: em 8 de julho, pouco menos de um mês de seu aniversário, Anne já escrevia de dentro do esconderijo organizado pelo seu pai, no prédio em que ele trabalhava, e que virou abrigo à sua família e aos Pels por dois longos anos de guerra e perseguição aos judeus.
No dia 1.º de agosto de 1944, aos 15 anos, ela escreveu pela última vez. Três dias depois, membros da SS, a polícia de Hitler, entraram no prédio e prenderam as oito pessoas que estavam escondidas no chamado Anexo. Acabava ali a esperança. Com exceção de Otto, pai de Anne, todos morreram em campo de concentração. Anne morreu provavelmente no fim de fevereiro ou início de março de 1945, de tifo, em Bergen-Belsen. Em abril, o campo foi liberado pelas tropas inglesas.
Páginas salvas
Miep Gies e Bep Voskuijl, secretárias que trabalhavam no prédio e ajudavam as duas famílias escondidas, encontraram as folhas do diário de Anne espalhadas pelo chão após a prisão. Quando a Segunda Guerra chegou ao fim, Miep deu o material a Otto. E ele sabia que a filha gostaria de vê-lo publicado – isso porque, em 1944, ela ouviu no rádio um membro do governo holandês dizendo que queria recolher testemunhos, sobretudo cartas e diários, sobre aqueles tristes tempos. Foi quando ela voltou aos seus escritos para melhorar aqui e ali.
Dois anos depois do fim da guerra, em 25 de junho de 1947, chegavam às livrarias holandesas os primeiros 3.036 exemplares de O Anexo Secreto – uma edição organizada por Otto a partir das duas versões da filha e com base no que ele achava que deveria ser publicado. Por exemplo, ele omitiu partes em que ela falava de sexualidade e criticava a mãe e outras pessoas do esconderijo.
Em 1950, o livro era publicado na Alemanha e na França. Em 1952, após ter sido rejeitado por 10 editoras, a obra saiu nos Estados Unidos. Houve uma peça ainda nos anos 1950, depois um filme. Tempos depois, documentários, HQs, adaptações infantis e até um musical. Hoje, O Diário de Anne Frank está publicado em 70 idiomas e, segundo a Fundação Anne Frank, vendeu mais de 30 milhões de exemplares no mundo.
No Brasil
A Record edita o livro aqui desde 1978, tem hoje versões em capa dura, econômica e em HQ, e afirma ter vendido 1,8 milhão de exemplares nesses 44 anos. Em 2021, o livro vendeu duas vezes e meia mais do que em 2011 – com um crescimento considerável depois da estreia, em 2014, do filme A Culpa é das Estrelas, adaptado do best-seller de John Green, de 2012. O motivo: o casal da história visita a Casa de Anne Frank, onde ela se escondeu e que abriga hoje um dos museus mais populares de Amsterdã.
A edição da Record é a chamada “definitiva”, organizada por Otto Frank e com texto fixado por Mirjam Pressler.
Em 2015, iniciou-se uma discussão sobre a entrada do livro em domínio público. Isso acontece na maioria dos países depois de 70 anos da morte do autor. No caso de Anne, acreditava-se, qualquer pessoa poderia publicar o diário a partir de janeiro de 2016. Mas a Fundação Anne Frank, fundada por Otto na Suíça, e herdeira dos direitos autorais (parte é doada para a Unicef), e as suas editoras trataram logo de esclarecer que Otto, morto em 1980, era o autor. Assim, domínio público do diário organizado só em 2051. O texto original, sem edição, sim, já pode ser usado.
“O Diário de Anne Frank se tornou um dos maiores símbolos da luta contra o antissemitismo e contra a barbárie da guerra. Por ter sido escrito por uma adolescente, o interesse na obra é constantemente renovado, geração a geração”, comenta Sonia Jardim, presidente do Grupo Record.
Em 2018, a editora lançou Anne Frank – Obra Reunida, que traz as três versões do diário (a original, a editada por Anne e a do pai) e outros textos escritos pela garota, para a escola ou no Anexo. E, um ano antes, publicou a versão em HQ, de Ari Folman e David Polonsky. Em 2015, a Rocco publicou o infantil O Mundo de Anne Frank, de Janny van der Molen. Mais recentemente, a Zahar incluiu em sua coleção de clássicos Querida Kitty: Um Romance Epistolar – o livro que Anne Frank queria publicar após a guerra.
Há muitas obras sobre Anne Frank, e muitos outras que complementam as histórias que acompanhamos no diário. Uma delas é Eu Sobrevivi ao Holocausto (Universo dos Livros), de Nanette Blitz Konig.
Nanette estava na festinha de Anne 80 anos atrás, deu um broche para ela, viu o diário por ali. Eram colegas de escola, duas meninas judias que talvez não simpatizassem muito uma com a outra (Nanette aparece no diário como E.S.: “fala muito e não é muito engraçada”), mas quando se encontraram por acaso em Bergen-Belsen, em 1945, fiapos de gente, o abraço foi apertado. Isso Nanette contou ao Estadão em 2015, quando lançou o livro, em uma conversa em sua casa, em São Paulo, onde ela, hoje com 93 anos, vive.
Legado
Joyce Rodrigues S. Gonçalves, professora do núcleo de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e autora da tese de doutorado Narrativas Autobiográficas: Memórias de Mulheres Sobre a Segunda Guerra Mundial, ressalta que O Diário de Anne Frank, que ela estudou, constitui uma referência importante como documento.








