ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 1:53:10

Rebeca Andrade conquista ouro inédito em Mundial de Ginástica

 

O Baile de Favela ecoou na coroação de Rebeca Andrade. Nesta quinta-feira (3), a ginasta de 23 anos conquistou o ouro inédito para o Brasil no individual geral do Mundial de ginástica artística. A vice-campeã olímpica da prova confirmou o favoritismo e brilhou para se tornar a primeira brasileira campeã mundial da prova mais tradicional da modalidade. Rebeca é a nova a número 1 do mundo e celebrou com a bandeira do Brasil no solo da arena de Liverpool.

Somando 56,899 pontos, Rebeca foi absoluta na final desta quinta. Ao fim de nenhuma rotação saiu da primeira posição, nem mesmo quando teve uma pequena falha nas barras assimétricas. O talento da brasileira é tão grande que ela conseguiu reverter qualquer mínimo deslize para somar 56,899 pontos nos quatro aparelhos. Teve exatamente um ponto e meio de vantagem para a americana Shilese Jones, que ficou com a prata – a diferença maior do que uma queda. A britânica Jéssica Gadirova ficou com o bronze (55,199).

A nota do solo do Baile de Favela nem tinha saído ainda e os poucos brasileiros presentes em Liverpool gritavam: “É campeã!”. Uma vitória histórica. A prova do individual geral é tradicionalmente dominada pelas três potências da modalidade: Estados Unidos, Rússia e Romênia. Rebeca quebrou a hegemonia e fez o Brasil ser apenas o oitavo país com um título de ginasta mais completa de um Mundial. Jade Barbosa já havia sido bronze, mas o topo do pódio é uma novidade para o Brasil.

– Foi o trabalho todo da minha equipe multidisciplinar, das meninas. Trabalhamos muito duro. Estou orgulhosa de mim. Sei o quanto trabalho para chegar aqui. Estou muito feliz. Eu não gosto de pensar no que as pessoas estão fazendo, e sim no que tenho que fazer. Na hora da série não preciso inventar nada novo, é algo que treinei, boto minha concentração nisso, respiro fundo e faço a ginástica que eu sei – disse Rebeca.

Dona de duas medalhas nas Olimpíadas de Tóquio, Rebeca aumentou para três a coleção de medalhas em Mundiais – foi campeã do salto e prata das barras assimétricas no ano passado. Ela se tornou a primeira brasileira com três medalhas em Mundiais. Também se tornou a primeira ginasta do Brasil campeã de duas provas diferentes em Mundiais.

E Rebeca ainda vai voltar à arena de Liverpool para buscar mais três pódios no fim de semana, nas barras, na trave e no solo. Flávia Saraiva está fazendo tratamento intensivo no tornozelo direito para conseguir estar ao lado de Rebeca na final do solo, no domingo. Flavinha estava classificada para a decisão do individual geral desta quinta, mas foi poupada para focar na recuperação do pé, lesionado na classificatória de domingo.

Prova a prova

Salto

Rebeca começou a final justamente no aparelho em que é a atual campeã olímpica e mundial e voou. Impressionou a altura do Cheng da brasileira, salto de maior dificuldade apresentado em Liverpool. Ela praticamente cravou e tirou 15,166 pontos, maior nota feminina do Mundial até aqui. Só a americana Jade Carey também apresentou um Cheng e conseguiu 14,733 para se colocar na segunda posição logo atrás de Rebeca.

Barras

Atual vice-campeã mundial das barras assimétricas, Rebeca teve uma falha em uma parada de mãos, mas se recuperou bem na série e conseguiu 13,800 pontos no seu aparelho favorito. Foi seis décimos abaixo do que fez na classificatória, mas manteve a vantagem de cerca de quatro décimos para a segunda colocada, que passou a ser a americana Shilese Jones.

Trave

Rebeca foi a primeira a se apresentar na trave na terceira rotação. No aparelho que é seu menos forte – fraco não é – Rebeca foi mais precisa nas acrobacias do que na classificatória e passou bem, conseguindo 13,533 pontos, um décimo melhor do que fez no primeiro dia do Mundial. A nota fez Rebeca abrir oito décimos de vantagem para a segunda colocada, a americana Shilese Jones.

Solo

Coube ao Baile de Favela fechar a final. E Rebeca brilhou mais uma vez. Foi precisa nas acrobacias e conseguiu pontos 14,400 pontos, um notaço. Antes mesmo de a nota sair, a pequena torcida brasileira já cantava na arena de Liverpool: “É campeã”. O título inédito não foi ameaçado. Rebeca é campeã mundial do individual geral.

De Guarulhos ao topo do Mundo

A história de Rebeca Andrade é parecida com a de muitos brasileiros. Ela vem de uma família humilde da periferia de Guarulhos. Com o emprego de doméstica, Dona Rosa sustentava os oito filhos em uma casa de um cômodo onde todos dormiam, e banheiro do lado de fora – graças à ginástica de Rebeca, a família vive em uma casa mais confortável hoje. Por incentivo de uma tia, Rebeca entrou na ginástica aos quatro anos, em um projeto da Secretaria de Esportes de Guarulhos, no ginásio Bonifácio Cardoso, na Vila Tijuco. Era o irmão mais velho que levava na garupa de uma bicicleta.

Por vezes, Dona Rosa não conseguia garantir que Rebeca fosse ao treino. A técnica Keli Kitaura, então, fez a proposta de ficar com a menina em casa nos fins de semana. Era um jeito de garantir que aquele potencial enorme não fosse desperdiçado. Aos 9 anos, Rebeca recebeu outro convite da treinadora: deixar de vez o lar de sua família para acompanhá-la em Curitiba, um importante centro da ginástica artística brasileira.

Dona Rosa deixou a filha seguir seu sonho no esporte. Nos dias ruins, Rebeca ligava chorando para a mãe pedindo para voltar para casa, não estava conseguindo fazer os difíceis movimentos que os técnicos pediam. Rosa acalmava a filha, que persistia na ginástica de alto rendimento. Ela foi contratada pelo Flamengo e, junto com Keli, se mudou para o Rio de Janeiro.

Rebeca desenvolveu bem sua ginástica e logo foi apontada como uma promessa. Só que as lesões começaram a minar seu potencial ainda na base. Ela estava classificada para as Olimpíadas da Juventude de Nanquim, em 2014, mas teve de passar por uma cirurgia no pé. Viu de casa a amiga Flávia Saraiva lhe substituir e conquistar três medalhas na China.

Rebeca não demorou a recuperar a forma e entrar com tudo no seu primeiro ano na categoria adulta. Pouco antes do que seria sua primeira grande competição, o Pan de 2015, acabou rompendo o ligamento cruzado anterior do joelho direito ao aterrissar ainda girando em um salto durante um treino. A cirurgia era inevitável, e oito meses de uma recuperação dura. Rebeca temeu não se recuperar mais, ganhou peso e por vezes perdeu a motivação. Voltou a ligar para a mãe e falar que iria desistir. Dona Rosa deu uma bronca, não deixou a filha abandonar a ginástica sem tentar.

Rebeca conseguiu disputar a Rio 2016. Ainda não estava no seu auge físico e não tentou vaga na final do salto, seu principal aparelho, mas foi a decisão do individual geral atrás apenas das americanas e acabou na nona posição. Em 2017, sem a presença de Simone Biles no Mundial de Montreal, a brasileira chegou como favorita ao ouro do individual geral. Aí teve uma lesão recidiva no joelho durante um salto no aquecimento para o treino de pódio, uma espécie de ensaio geral da ginástica.

A recuperação de Rebeca na segunda cirurgia do joelho direito foi tão boa que ela conseguiu enfim disputar seu primeiro Mundial em 2018, ainda que não tenha se apresentado nos quatro aparelhos. Em junho de 2019, durante o solo do Campeonato Brasileiro, uma nova lesão no joelho. Rebeca não pôde disputar o Mundial de Stuttgart, competição pré-olímpica e viu a vaga para Tóquio ameaçada.

Rebeca se preparava para tentar a vaga olímpica no Campeonato Pan-Americano em 2020, quando o coronavírus se tornou uma pandemia e adiou o Pan e as Olimpíadas. Diante de tantos cancelamentos de eventos por causa da covid-19, a incerteza de que o Pan de fato aconteceria no Rio atormentou a ginasta. Poderia nem ter a chance de tentar a classificação. A competição aconteceu, e Rebeca brilhou. Foi campeã do individual geral, garantiu a vaga em Tóquio e mostrou que estava pronta para tentar um inédito pódio olímpico para a ginástica artística feminina do Brasil.

Em Tóquio, Rebeca encantou o mundo com seu Baile de Favela. Se tornou a primeira brasileira medalhista olímpica da ginástica com a prata no individual geral. Depois se tornou a primeira brasileira campeã olímpica da modalidade com o ouro no salto. Logo voltou ao Japão para o Mundial de Kitakyushu, onde mais uma vez saiu com um ouro (salto) e uma prata (barras assimétricas).

Nesta temporada, Rebeca atingiu um novo patamar. Ela se consolidou como a maior referência da modalidade. Dominou a temporada e foi absoluta na conquista do inédito ouro do individual geral no Mundial de Liverpool. E Rebeca ainda vai voltar à arena de Liverpool para buscar mais três pódios no fim de semana, nas barras, na trave e no solo.

– Significa todo meu trabalho. Foi o trabalho todo da minha equipe multidisciplinar, das meninas que treinam junto comigo e me deram todo o apoio hoje. A gente trabalha muito duro. Estou orgulhosa de mim, do que apresentei aqui dentro e de todas as meninas que passaram aqui hoje, porque sei o quanto trabalho para chegar aqui, então imagino o quanto elas trabalham para chegar aqui e arrasar. É um orgulho enorme. Estou muito feliz.

Fonte: CNN Brasil e G1

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