ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 2:03:48

Saiba quem é quem nos núcleos de atuação da rede suspeita de práticas criminosas de Vorcaro

 

A terceira fase da Operação Compliance Zero, que levou novamente à prisão o banqueiro Daniel Vorcaro, revelou a estrutura e os personagens centrais de uma rede suspeita de atuar como uma espécie de milícia privada para vigiar, intimidar e levantar informações sigilosas sobre desafetos do empresário. Segundo a Polícia Federal, o grupo, apelidado de “A Turma”, seria dividido em núcleos com funções específicas, envolvendo desde articulação financeira e repasse de recursos até coordenação operacional, execução de ameaças e acesso indevido a sistemas restritos de órgãos como a própria PF, o Ministério Público Federal e bases internacionais.

Apontado como líder da estrutura, Daniel Vorcaro teria contado com o cunhado, o empresário e pastor Fabiano Zettel, no núcleo financeiro; com Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, na coordenação operacional das ameaças; e com o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, além de ex-integrantes de órgãos públicos, na execução de monitoramentos e acessos indevidos a sistemas restritos.

A nova prisão ocorreu na terceira fase da Operação Compliance Zero, a primeira autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que se tornou relator do caso no mês passado, no lugar de Dias Toffoli.

Pouco mais de três meses após deixar a prisão, Vorcaro voltou a ser detido na quarta-feira (4) após a Polícia Federal (PF) apontar a atuação de uma rede suspeita de monitorar e planejar ações violentas contra pessoas que ele considerava adversários. A investigação apura possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão a sistemas oficiais da PF e de outros órgãos de investigação.

Ainda na quarta, Vorcaro e Zettel foram transferidos da Superintendência da PF em São Paulo para o Centro de Detenção Provisória (CDP) II de Guarulhos, na região metropolitana da capital.

‘Calar voz da imprensa’

Na decisão que mandou prender Vorcaro, André Mendonça afirmou haver indícios de que o banqueiro determinou que se forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para “prejudicar violentamente” o colunista do Globo Lauro Jardim. O objetivo, diz o ministro, era, a partir do episódio, “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro revelam que o banqueiro participava de um grupo chamado “A Turma”, no qual foi discutida uma estratégia para simular um assalto e atacar Lauro Jardim.

Nos diálogos encontrados pela PF, Vorcaro afirma que seria necessário colocar pessoas para seguir o colunista do Globo e chega a mencionar a possibilidade de agredi-lo em um suposto assalto para intimidá-lo. Nas mensagens reproduzidas na decisão de Mendonça, o banqueiro teria dado autorização para que a ação fosse executada contra o jornalista. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, escreveu Vorcaro, segundo transcrição feita pela PF. A tentativa de intimidação revelada na quarta gerou imediata reação de entidades.

As mensagens apontam que o agressor seria Mourão. Segundo a investigação, ele seria responsável pela coordenação operacional de atividades de vigilância, levantamento de informações e monitoramento de pessoas ligadas a investigações ou críticas ao Master.

De acordo com os investigadores, Mourão também realizava consultas em sistemas restritos de órgãos públicos, utilizando credenciais de terceiros para acessar bases de dados ligadas a instituições de segurança e investigação. A Polícia Federal afirma que houve acessos indevidos a sistemas da própria PF, do Ministério Público Federal e até a bases internacionais, como FBI e Interpol.

Segundo a investigação, Vorcaro mantinha a estrutura de vigilância e de “grave ameaça por uma espécie de milícia privada”, o grupo “A Turma”, que era destinado à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação. A polícia apontou que o banqueiro dava instruções para monitorar e agredir pessoas que considerava como desafeto ou adversário.

O grupo reunia personagens com diferentes perfis e funções. Entre os participantes estavam um ex-diretor do Banco Central, um ex-chefe de departamento da mesma instituição, um policial civil aposentado, apontado como responsável por executar ações de caráter miliciano, além de Zettel, cunhado de Vorcaro. De acordo com a decisão de Mendonça, cabia a Mourão coordenar a execução das atividades e repassar ordens atribuídas ao banqueiro.

Os investigadores também identificaram indícios de pagamentos regulares a Mourão. Segundo as mensagens analisadas pela PF, ele teria recebido cerca de R$ 1 milhão por mês, valor que seria repassado por Zettel em nome de Daniel Vorcaro e, posteriormente, dividido entre integrantes da estrutura.

Em outra mensagem interceptada pela PF, Vorcaro diz a Mourão para “dar um sacode” num chefe de cozinha ligado a um ex-funcionário. Em outra, o banqueiro pede para “moer” uma empregada que o estaria ameaçando. “Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda”, diz. Mourão, então, pergunta: “O que é para fazer?”. Ele responde: “Puxa endereço tudo”.

Sequestro de bens

No início da manhã de quarta, a PF cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais. Também foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e sequestro e bloqueio de bens, no montante de até R$ 22 bilhões, “com o objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados ao grupo investigado e preservar valores potencialmente relacionados às práticas ilícitas apuradas”, informou a PF.

A defesa de Vorcaro disse que o ex-banqueiro não obstruiu a Justiça no caso Master e que colaborou com as investigações. Ainda segundo seus advogados, ele afirmou, ao ser preso, que “jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto” e que o fez “em tom de desabafo, em privado”. Já o advogado de Zettel disse que não teve acesso aos autos, mas que seu cliente “está à inteira disposição das autoridades”. Os advogados dos demais citados não comentaram.

Fonte: O Globo

Você pode querer ler também