ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 1:38:35

A barulhenta sinfonia dos pássaros

Da varanda, assisto o casal de sanhaço beliscar o chão e trocar carícias via  bicadas. Aproveitam a sombra da aceloreira ainda jovem. Pode ser o mesmo casal que, dois dias atrás, vi nos galhos da canafístula, bem juntos, esperando a chuva passar. Aliás, sanhaço aqui não falta, no seu azulado bem leve, cor, aliás, que, nos meus parcos conhecimentos de pássaros e passarinhos, quiçá seja o único, simboliza muita beleza e igual fragilidade.

 

À tarde, depois das dezessete horas, aparecem, juntos, de quinze a vinte, assim, de repente, como se saíssem do nada, pousando num flamboiã,  e desta passando para uma mangueira, e, às vezes, encerrando o vôo na aceloreira de folhagem fechada e galhos intrincados, enchendo o ambiente de pios e mais pios, até se acomodarem para o sono noturno. A barulheira é grande. O pouso na mangueira ou na aceloreira, nos meios das folhas, é marcado pela rapidez com que desaparecem no meio da folhagem, o bando quase inteiro, de uma só vez, sem tocar nas folhas.   

 

Na manhã, é o sol se anunciando e o acordar dos sanhaços também é sonoramente barulhento. O bando sai e desaparece da nossa vista. Onde vão, o que fazem, onde passam o dia inteiro, tudo escapa de nosso conhecer. O certo é que a sinfonia,  que antecede o anoitecer e se repete, na alvorada, não é só um privilégio dos sanhaços. O brió preto, também em bandos, marca presença, num pular incessante, do flamboiã para a mangueira e desta para a aceloreira, duas vezes por dia, cada um nos seus gorjeios, a marcar presença, sem choques internos.

 

Há o registro – e o vaqueiro me informa com certo menosprezo – da presença do pardal, por aqui recém chegado, que, também já deu as caras em grande número, a reprodução permanente, a copiar os gestos do sanhaço e do brió preto, e, para não perder o costume, tomando os ninhos das lavandeiras, em número já bem reduzido. E, por falar em lavandeira, ontem, um filhote, perto do curral, assediado pelos pais, sem conseguir voar, trafegava aflito. Sugeri que se colocasse numa gaiola para não matar a fome de alguma cobra. A esposa do vaqueiro recusou: era pecado prender uma lavandeira, porque elas lavaram a roupa de Nossa Senhora. Essa história eu ouvi menino. Ainda corre pelo mundo. Só esqueceram de contar ao pardal.