De diferente, a bodega de Chico bateria não continha nada. Aliás, tinha. O dono era torcedor do Botafogo, numa época em que toda a sua torcida se concentrava em três torcedores: ele próprio, Zé Pinto e Marcelino Andrade. Zé Pinto lá ia, com seu óculos de lentes grossas, de bicicleta, enfeitada de escudos do Glorioso, com frequência, para interlóquios constantes. Chico bateria falava alto. Discursava. Zé Pinto, baixinho. Marcelino morava longe. Mas o tempo era dos melhores, o Botafogo de Garrincha, Didi, Quarentinha, Nilton Santos, Zagalo, ou seja, o botafoguense vivia de riso aberto e bem feliz. Chico bateria, igualmente.
Um fato que me chamava à atenção e ficou pregado na minha memória foi a letra de Chico bateria, ao anotar na caderneta da freguesia a venda de pão. Sim, a gente ia comprar pão com a caderneta na mão. Chico bateria, de lápis, fazia um risco qualquer que tinha o significado de pão, e, adiante, o valor. Eu não conseguia vislumbrar o termo pão. Quando Helder começou a escrever, lá me vinha a lembrança da letra de Chico bateria. Eu reagia: isso é letra de bodegueiro. Conserte a letra.
Nas bodegas de hoje, se vende fiado, anotando-se na caderneta, como no tempo de Chico bateria? E cigarro, o cigarro vendido em retalho, um, dois, três, em diante, a carteira aberta, Continental, Astória, Hollywood? Ou a manteiga, igualmente, extraída da lata, papel apropriado, enfiada na balança, meio quilo, um quilo? Daí o papel manteiga. Eu não sei nem se hoje ainda existe bodegas, porque o supermercado matou todas. Se sim, é nos arrabaldes, o dono se municiando do produto que compra nestes para vender com lucro a quem do supermercado mora longe. Não haveria mais lugar para a bodega de Chico bateria.
Um dia, a bodega de Chico bateria fechou as portas. Quando? Em 1960, na eleição de Jânio – em quem Chico votou -, ainda funcionava, Osvaldo massa crua comentando os resultados que deixavam os udenistas felizes. A partir daí, não me lembro. Só sei que fechou, mas não foi esquecida. Luciano de Oliveirinha, que demora a ir a Itabaiana, se justifica: não há mais a bodega de Chico bateria. Pergunto eu: qual outro bodegueiro é digno de tal elogio?
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras
