ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 4:11:46

A bola de borracha, na remota lembrança

A bola não era bola, e, de bola mesmo só o formato redondo e a aptidão para rolar pelo chão. De construção caseira. Aproveitava-se a meia, velha ou furada, de mulher, enrolava-se de um jeito que não sei explicar. Eis a bola. Com ela corríamos no meio da rua, chutes desferidos mais no paralelepípedo, o receio de acertar no calçamento, pelo risco de dano que podia custar caro. No poste, da esquina, o apoio de outro tronco, atravessado como a faixa do Vasco. O espaço, de menos de um metro, se servia de trave, que só existia de um lado. E aí fazíamos a festa, passarinho solto da gaiola da casa, favorecidos pela tranquilidade que a falta de veículos na rua nos proporcionava. Ninguém precisava ficar de vigia. Esse era o jogo mais remoto que vi no oitão lá de casa, todo mundo correndo atrás da bola e ela fugindo da gente. Eu, no meio.

Ali também os meninos mais velhos faziam parada, dois trocando passe no alto e chutando ou cabeceando para o goleiro. A bola era de borracha, que a bodega de Nanci tinha em bom estoque, em tamanhos variados, a arder no seu contato com o pé sem meia e sem chuteira, doendo também quando batia na barriga da gente. Dessas, as janelas da casa eram as grandes vítimas, pelo vidro que traziam na parte superior, que a bolada quebrava. Mamãe se desdobrava em reclamação. Quando se pode fazer uma reforma, as janelas despareceram, tempo em que o movimento de veículos nas ruas dava um salto, decretando a extinção de um campo de futebol que nunca teve grama que não nasce em paralelepípedo. As bolas de borracha tinham vida curta. Ressecava com o tempo, o ar saía, a bola deixava de ser bola para se tornar em lixo, porque não servia mais para nada, indo descansar nos monturos agregados ao setor urbano.

Desse tempo não se guardou uma foto, mesmo porque ninguém tinha máquina para tanto. Nenhum lance mereceu um vídeo. Arquivo nenhum guarda nada a respeito, nem uma bola feita de meia de mulher foi conservada para servir de remédio. E foi bom mesmo, porque quando, hoje, vejo a meninada, na idade nossa daquele tempo, jogando bola,  a leveza ao conduzi-la, a intimidade nas piruletas, o toque de quem sabe o que está fazendo, eu fico a perguntar a mim mesmo se aquilo que a gente jogava era mesmo futebol. Dou o silêncio como resposta.