ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 5:03:11

A prova oral e o simbolismo

Dos setenta e cinco candidatos a cinquenta vagas, em decorrência do nome iniciado por v eu fui o último a ser arguido por Cabral Machado. Das provas que assisti, quase todas, teria respondido as indagações formuladas. Cabral falava alto e sua voz se espalhava com nitidez por toda sala. Era ouvindo as perguntas, analisando muitos se engasgarem e a vontade de pedir a palavra para responder. No terreno da literatura brasileira e portuguesa, eu trafegava bem. Era a única matéria que não me assustava. Não me afetou a estudante de calça apertada que saiu da prova chorando, as lágrimas fazendo a maquiagem preta escorrer pelo rosto. Finalmente chegou minha vez, a tarde caindo, a sala vazia. A pergunta única que Cabral Machado formulou me deixou atordoado. Por que o simbolismo não foi para a frente no Brasil, ao contrário do ocorreu em alguns países na Europa? Não sabia. Nunca tinha mergulhado em crítica literária para fazer as comparações devidas do que se verificou lá e aqui. O estudo feito não era de escalar altas montanhas. Mas, não dei por vencido. Falei sobre o simbolismo, características, discorri sobre Cruz e Souza, recitei uma poesia, invoquei Alphonsus de Guimaraens, e me calei.

Cabral Machado observou: o senhor não respondeu minha pergunta. Então, fui à luta: não era pergunta para prova de vestibular. Só precisava de quinze dias, depois das provas, para, indo a  a biblioteca do Estado, elaborar o estudo devido. Cabral, ele mesmo, encontrou espaço para desfilar conhecimentos. Respondeu. Uns cinco minutos de eloquência. Só que não prestei atenção alguma. O pensamento voejava na perspectiva concreta de ser reprovado na primeira prova. Um ano parado em Itabaiana simbolizava atraso. A impressão que sentia era de um boneco inflável que se esvaziava silenciosamente, enquanto Cabral ditava cátedra.

Pode ir, disse. Procurou meu nome na lista dos inscritos, sem se incomodar com minha presença. Não me levantei. A sentença de morte esperada já me deixava preparado para morrer ali mesmo. A caneta Parker desfilou suave no papel: nove. O sangue voltou a circular. O boneco ganhava vida. Sai rindo por dentro. No outro dia, as provas seguiam. Era o batismo de fogo. Muitos e muitos outros me aguardavam pela frente. O futuro estava só começando.

Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras