Eu vi e posso testemunhar na polícia e em qualquer juízo. E, aliás, não foi a primeira vez que denunciei o fato, sem que providência alguma tivesse sido tomada. Agora, outro fato idêntico no miolo. Alterou-se apenas a rota de fuga. Em lugar do avanço em direção ao mar, a fuga se verificou em direção sul, abeirando a pista da avenida. Na primeira vez, eram os pais que perseguiam o seqüestrador do filho, o bandido segurando a vítima, e os pais, um de um lado, outro, do outro, a baterem nele, sem conseguir sucesso, porque o pimpolho continuava bem seguro. Desta vez, apenas um deles perseguia o seqüestrador. Acompanhei-os de longe, perto da Ponte da Coroa do Meio, até perdê-los de vista.
Nas proximidades, uma dupla de policial não teve a atenção voltada para o fato. Nenhum deles levantou a vista para o alto. Assim tivesse feito veria um passarinho, – não dava para saber se pardal ou bem-te-vi, ou terceiro desconhecido – em vôo seguro, perseguindo um gavião, tão comum nessas bandas da 13 de Julho, que, na garras, carregava um seu filhote, a esta altura, acredito, já devidamente morto. O passarinho, bem minúsculo em relação ao gavião, dava um exemplo da paternidade, ao enfrentar um adversário muito maior em defesa do filho indefeso, voando perto, procurando bicá-lo na tentativa desesperada de salvar o filho, sem ter noção deste já estar sem vida. Até onde foram, não é possível dizer, porque logo desapareceram de minha vista, e, aí, o fato, para os meus olhos, encontra o seu final, em nada feliz.
Outro dia, vi outro fato do mesmo tom.. Um bando de saguin se deslocava do manguezal para as amendoeiras do lado dos canteiros, quando um se enganchou na roda de uma bicicleta que passava naquele exato instante. Apesar de cauteloso o saguin, um descuido, foi o suficiente para ser atropelado. Atingido na cabeça, o local da pancada já encharcado de sangue, o saguin, por uns dois minutos, mesmo deitado, ficou dando pulos para o ar, frutos da pancada, o corpo se levantando de um lugar para o outro, várias vezes, os outros, de longe, observando. Não quis vê-lo morrer, me retirando do local. Na volta, procurei o seu cadáver. Não o encontrei. Por certo, vieram buscá-lo para dar um sepultamento digno. Achei bonita a solidariedade.
