Maria está no mato a buscar lenha. Quem estiver tomando surra dos pais, até o retorno de Maria, trava luta contra o tempo. Maria, na intimidade com os caminhos no mato para percorrê-los, procurando gravetos, pequenos troncos e galhos miúdos, de preferência enxutos, amarrá-los com corda, colocar na cabeça, como o faz com o pote, e retornar para casa, deve primar pela rapidez, a fim de evitar que a surra se prolongue. Talvez o marido fosse mais ágil. Mas, não se sabe o motivo do encargo ser só de Maria, de modo que a surra só encontra seu final depois que Maria retorna da lenha. Se for o marido o encarregado da lenha, a pancadaria não termina. O problema é Maria acelerar os passos, ela que gosta de ouvir o canto dos pássaros, em decorrência de possível parentesco – não há certeza – com Branca de Neve.
Talvez Maria não saiba de seu papel de estancar uma surra dada pelo pai no filho se retornar logo do mato, depois de pegar lenha, e o fazer com ligeireza, a fim de evitar algum excesso na aplicação dos castigos corporais. Penso que a vítima, sabendo que apanha até Maria chegar da lenha, talvez tenha a iniciativa de, domesticamente,querer fazer o papel de Maria para evitar o castigo físico, convertendo a surra em prestação de serviços, e, assim, buscar lenha no mato. Só sei que até cipó caboclo se usa nessas surras, sendo a palmatória instrumento de tortura dos mais suaves, no que é melhor procurar lenha do que apanhar, dúvida não há, naturalmente.
Os da cidade se livram de apanhar até Maria chegar da lenha, além de lavrar queixa no Juizado de menor, a imprensa em cima, o pai e/ou a mãe a responder processo por maus tratos. Entra na história o fogão a gás substituindo o de lenha, e. também, a urbe invadindo os povoados lindeiros, o mato derrubado pelo machado, contribuindo para Maria não ter mais onde encontrar lenha, o que pode resultar no fim das surras. A solução é Maria adquirir o fogão a gás, até porque não consta, no dicionário de ditos populares, que o filho deva apanhar até o gás faltar. Assim, compre, Maria, o fogão, logo, com urgência, antes que a situação fique mais feia.
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras
