O Governo Federal anunciou uma medida indicando a redução de impostos nos preços dos carros populares de valor até R$ 120 mil. A medida deve durar até quatro meses, segundo o ministro da Economia, Fernando Haddad. A variação de redução está entre 1,5% até 10,96%. Contudo, essa medida vai realmente baratear os carros, ou os carros novos continuarão caros?
Consideremos o salário-mínimo como indexador para a compra de um carro. Então, um carro popular que hoje está custando cerca de 90 mil reais está custando 68 salários-mínimos. Esse valor é fora da realidade para a grande maioria dos brasileiros, pois o carro custa 5 anos e 8 meses de trabalho.
Levando em conta os dados da consultoria Jato Dynamics, que mediu a evolução do preço dos carros entre os anos de 2017 e 2023, concluo que o valor dos veículos está muito acima do que o brasileiro pode pagar. Em 2017, com o valor de R$ 937, para se comprar o carro mais barato da época, o brasileiro investia 28 salários-mínimos. Hoje, para a mesma compra, considerando o carro mais barato da atualidade, não se compra um carro com menos de 52 salários.
De acordo com a Jato Dynamics, o valor médio dos carros no Brasil aumentou 90% no período de sete anos, o que coloca cada vez mais distante a possibilidade de um cidadão ter a oportunidade de comprar um carro novo. A quilometragem para as famílias mais pobres é ainda maior, colocando uma condição de impossibilidade, devido ao alto preço dos veículos.
O preço médio do carro zero em 2017 era de R$ 71 mil. Hoje está em R$ 140 mil. Ou seja, os carros dobraram de preço no período. Somente neste ano, o valor nominal dos carros já elevou 7% entre janeiro e março, colocando cada vez mais barreiras para que os brasileiros possam comprar um carro novo.
Devemos ponderar que a crise dos semicondutores ocorrida na pandemia foi um dos principais fatores da elevação do preço dos veículos, tal como o aumento assustador no preço do aço, que nos últimos anos dobrou seu valor de mercado.
A alta da inflação também foi fator determinante para o aumento significativo do valor dos carros. E isso se enraizou, fazendo com que os carros populares saltassem de preço, enquanto os carros médios e picapes não sofreram tanta elevação, diante dos modelos mais acessíveis do mercado.
Enquanto os preços elevaram, a produção foi continuada, paralisada e depois voltou a ter continuidade. Com menos vendas, os estoques das montadoras foram ficando represados e atualmente há uma grande disponibilidade de veículos dos mais diversos fabricantes para compra à pronta-entrega. E mesmo assim não houve recuo de preço por elevação de oferta.
Devemos considerar que o custo do dinheiro para compra, o custo do crédito, também é um agente impeditivo para a retomada do crescimento das vendas de veículos. Atualmente o crédito está mais caro, devido às altas taxas de juros para financiamento. A dificuldade em encontrar taxas apropriadas para as famílias que possuem renda suficiente para a compra de um carro novo, tem afastado os consumidores das concessionárias.
Até mesmo o mercado de carros usados tem sentido esse impacto, pois há uma nítida comercialização maior de veículos de segunda mão, por estarem mais acessíveis, mesmo também com elevação de preço.
A medida do governo é importante? Sim. Entretanto, são necessárias mais ações para que o brasileiro possa ter novamente a oportunidade de compra de carro novo. E isso não pode somente passar pelos incentivos e desonerações. Afinal, a indústria automobilística brasileira existe há 66 anos e se tornou codependente das medidas de amenização fiscal.
Quando há uma possibilidade de retirada de incentivos, começam a ameaçar o fechamento de fábricas e demissão de trabalhadores, pressionando o poder público para manutenção das benesses da indústria. E é importante ressaltar que a carga tributária sobre os veículos nacionais é a mais alta do mundo, com 44% de tributação, superando a da Itália, que é a segunda colocada, com 22% e quase o triplo do México, que cobra 16% de impostos sobre os veículos produzidos.
