ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 2:40:12

Da eterna infância

A imitação era grande, revelada no rústico revólver de madeira, que nem guardava semelhança com um de verdade, apontado para o adversário. Ganhava quem visse primeiro o inimigo e disparasse, o grito simulando o tiro. A meninada se dividia. Uns, corriam para um lado. Outros, para outro, às vezes avançando por ruas lindeiras. Tudo herdado dos mais velhos, a inspirar a geração seguinte, e assim sucessivamente, chegando a minha. Até a palavra xerife nos era transmitida. Foi dos filmes de caubói que aprendi a denominar o mocinho de artista e o vilão de bandido, terminologia que me acompanhou por tantos anos depois.

Uma fábrica de chocolate chegou a distribuir uma estrela de xerife, bastando a gente preencher o cupom pregado em página de revista, colocar no envelope no correio e esperar. Um dia, quando ninguém mais esperava, nem se lembrava, o envelope com a estrela chegava. A condição de xerife estava consagrada. Faltava o cavalo, a camisa de manga comprida, o chapéu, o que não diminuía o nosso entusiasmo. A ausência de carros nas ruas favorecia as carreiras.

A idade passou a página para trás. Pensávamos em namoro, não ficando bem estar a correr nas ruas com um pedaço de madeira na mão como se fosse um revólver. Veio o futebol de botão, campo de madeira, botões de plástico, de coco, goleiro de caixa de fósforo com peso dentro, a palheta na mão, caroço de milho como bola, e, partimos para organizar campeonatos, que nunca terminava porque brigávamos. A inspiração americana continuava. Criamos uma entidade sem estatutos, a federação dos botões de Itabaiana. Na sigla, o plágio: FBI.

Muito mais tarde, quando não me lembrava das carreiras nas ruas, nem dos jogos de botão, lendo sociologia política, encontrei o termo macaquismo do brasileiro a imitar o estrangeiro em vários setores da vida, a começar pela denominação que a República conferiu na primeira Constituição – Estados Unidos do Brasil -, mas, nem assim, vi a carapuça cair na minha cabeça nem das gerações que me antecederam. A gente seguia os passos dos mais velhos, até na pronúncia das palavras. Ainda hoje não digo efe nem eme, nem ene, mas fê, mê, nê, porque foi assim que aprendi. Acho que sou exemplo da página do livro dobrada por algum tempo. Depois, quando desdobrada, a marca fica bem visível. Em suma, da infância não se liberta.