ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 0:27:54

De Alba, reminiscências

Me movimento com rapidez pelo pátio lá de casa. Devo ter de três para quatro anos. Uma perna se levanta na minha frente. A queda é inevitável, minha cabeça se chocando com um dos postes de madeira. Desabo em choro. Mamãe me acode, estanca o sangue.  Depois, tudo volta a mesma rotina. A perna levantada é de Alba, a mesma Alba que, bem pequena, muitos anos antes, sobe o mamoeiro com um facão na mão, paus de lenha guardados embaixo, no momento em que papai chega da loja, vê a cena, e, na ponta dos pés, atravessa o quintal silenciosamente até segurá-la pela cintura. Outra cena me vem à mente: Bosco, cuidadoso, no quintal, amarrando com um pano várias goiabas, para evitar que o passarinho delas se aproveitasse. Pouco tempo depois, era a colheita. Nenhuma mais existia. Só o pano. Alba já tinha aparecido antes e se aproveitado. Bosco lhe foi prestar queixa. Recebeu uma cusparada. Saiu chorando. Em outra vez, algo ela me aprontou, que não me lembro, e, como mamãe não tomou providência nenhuma, recorri a autoridade de papai, fui à loja. Não consegui entabular uma palavra sequer de reclamação. Só o nome dela. Papai interrompeu minha narrativa com uma nota de dois cruzeiros, uma cédula nova com a cara do Almirante Tamandaré, e eu retornei feliz a tempo de ainda ir para a escola.

Em contrapartida, o tempo a tornou guardiã de todos, e, igualmente, dos irmãos. Bosco, em suas noitadas de sábado bafejadas de cerveja, recebia sempre um telefonema que o tirava da cama e, ao atender, embolava as palavras, quiçá com algum desaforo. Ela, reconhecendo a voz, desligava o telefone. Interessava-lhe saber que ele já estava em casa. De minha parte, retornava de Maceió na sexta-feira à noite. O telefonema surgia. Era ela para saber se eu já tinha chegado. Desconfiada, só se dava por satisfeita quando ouvia minha voz. São alguns exemplos.

Na madrugada do último dia 20, Alba deixou de respirar. A moléstia não lhe poupou a vida. Não pesou as caridades que fazia, nem o papel de matriarca que desempenhava, o amor pelos seus, a alegria que a condição de avó de suas netas lhe proporcionava. Quando consciente, queria saber notícias das andanças políticas. O título de eleitor ficou sem serventia. Da eleição próxima, apenas a ausência e o alívio de não ficar nervosa com a divulgação dos resultados.