ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 1:36:49

De hábitos antigos

Na padaria, ou na bodega, a cena era uma só: o pão colocado na sacola pelo padeiro ou bodegueiro com as mãos. E, com as mesmas mãos, recebia o pagamento, passava o troco, se fosse o caso, guardando o dinheiro na gaveta. Não lavava as mãos. Imediatamente, novos pães eram vendidos, da mesma forma. Não se falava na falta de higiene. Era assim, sem protesto e sem gasto de qualquer latim. Uma vez gerou recusa. O freguês, ao entrar na padaria, viu o filho do dono do nariz puxar catarro que não se acabava mais, limpando  depois as mãos na calça. Então, indagou: o que o senhor quer, seu fulano? A resposta: queria. E o freguês saiu da padaria para ir comprar o sagrado pão em outra.

Não ficava só nisso. A venda de rolete de cana, em bambu, oito ou dez roletes enfiados em cada uma taboca com talos, imitando a palma de banana, gerava um fato da mesma gravidade. A pessoa comprava o rolete, fazia a degustação devida, jogando o bagaço onde estivesse, e, no final, a taboca de bambu também era deixada na rua. O vendedor de rolete contratava alguns meninos para recolher as tabocas, que, assim, sem ser lavadas, sem reciclagem alguma, voltava a carregar novos roletes sem que ninguém desconfiasse de nada, absolutamente nada.  O mesmo acontecia, muitas vezes, com o palito de picolé que ainda estivesse intacto. Então, do chão da rua para a sorveteria. A utilidade continuava.

E a água de moringa, vendida nas feiras? O vendedor perambulando pelas barracas, moringa numa mão, copo em outro, a vender água, todo mundo se servindo do mesmo copo, gatos e cachorros, cavalos e bois, sem se incomodar com nada. O essencial era matar a sede, numa época  em que água mineral não era ainda vendida nos bares nem existia supermercado.

A exceção, digna de nota, do maestro Antonio Melo, a esbravejar com os alunos que começavam a tocar na banda. No intervalo, deixem o instrumento no banco e retirem o bocal para ninguém tocar. Assim fazíamos, guardando-o na mão ou no bolso da calça. O maestro merecia uma estátua.  Isso tudo, no antigamente da vida, lá atrás, bem distante, onde a luz do presente não mais ilumina. Só a lembrança dos que viveram esses tempos.

 

                                      Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras