ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 4:03:45

De uma viagem e algumas mentiras

De repente, a mulher saiu lá atrás a fim de me perguntar quanto tempo faltava para chegar. Explicou que a bateria do celular estava no final e dela precisava ante a necessidade de avisar a irmã quinze minutos antes da chegada a fim de poder ir à rodoviária esperá-la. Respondi. Algum tempo depois, novamente a mesma mulher e a mesma pergunta. E mais: ficou em pé puxando conversa, até que eu, de pescoço doendo de estar olhando de banda, perguntei se ela não queria se sentar. Ao meu lado, o banco estava vazio. Topou. Sentou.

 

Sapecou logo a pergunta se eu morava lá ou cá. Respondi que morava nos dois lugares. Como? Ora, uma família lá, outra aqui. A mulher se interessou pela conversa, continuando o interrogatório, sobre o número de filhos de uma e da outra, se uma sabia da existência da outra, no que afirmei positivamente, na informação que a espantou quando disse que conversavam pelo telefone somente quando eu estava doente, uma querendo saber da outra como eu me encontrava, o que estava tomando, recomendando o que a outra deveria fazer.

 

Acho que foi a parte da história que mais mexeu com agora minha vizinha, acentuado por um dado que terminei fornecendo: as duas tinham um ponto em comum. Qual? Ora, ambas se pelam de medo que eu arranje uma terceira. Ao que ela não conseguiu segurar a observação, duvidando da minha masculinidade: Só se você der conta de uma terceira. Para meu sossego não perguntou pelo nome dos três filhos de cá e dos dois de lá, apesar de ter esclarecido que, em época de férias, os de cá vão para lá e os lá vem para cá,  dando-se os cinco muito bem, com contatos quase que diários, idades correlatas, e, inclusive, parecidos.

 

Na descida, o amigo que me esperava chamou a atenção da mulher. É seu filho, indagou. Sim, filho, fruto de namoro nos meus tempos de estudante. Desse namoro, só ele nasceu, saindo alto a família materna. A mulher ficou parada, boca aberta, sem me perguntar mais nada. Eu ainda me ofereci para levá-la a casa da irmã, caso esta não estivesse por ali. A mulher soltou uns três não, colocando as mãos a frente, como se fosse um muro de proteção. Apressou o passo em direção a entrada da rodoviária. Acho que ficou com medo.