O ovo cozido, cortado matematicamente, era colocado em cima do macarrão, que fazia parte do cardápio quando o principal era galinha. Prato, aliás, do dia de domingo, quando a mesa se forrava do que de melhor tínhamos, único dia da semana em que papai dormia, em casa, depois do almoço, a porta do quarto fechada, o silêncio a imperar sem que necessitasse de qualquer alerta para tanto. Respeito de todos. E, aliás, no cotidiano de todo dia, ninguém falava alto, nem vivia aos gritos.
O ovo me atraia, seja aquele, bem fatiado, seja ainda em formação, um monte de ovos, em tamanhos diversos, interligados, encontrados na galinha, cozidos sem se diluir, constituindo numa apetitosa provocação quando conseguia transportá-lo para meu prato. Não me vem à memória ser objeto de disputa entre os que, na minha tribo, estavam à mesa.
De lá para cá, só os nomes mudaram. O macarrão, como chamávamos, passou a ser espaguete, as prateleiras dos supermercados exibindo os seus diversos tipos, batizados com nomes que, nos tempos de menino, não conhecíamos, hábito que, aos poucos, o colocou de escanteio, porque o termo macarrão passou a englobar tudo feito por massa. Já a galinha frita recebeu o bonito e refinado nome de guisado, com o qual terminei me acostumando, e a de capoeira ganhou a concorrência da de granja, obra da ciência, que criou uma ave de pouco tempo de vida, feita para ser consumida em noventa dias, ou, não sendo, passa a viver um verdadeiro e trágico pesadelo.
Testemunhei uma experiência nesse sentido, galinhas de granja que não foram abatidas no tempo certo, a se tornar meros espectros, as penas com o branco amarelando, lentas, sem reagir aos galanteios do galo do terreiro, estagnadas num ponto, como se esperassem a morte e esta não desse as caras, dormindo no chão porque não subiam em nenhuma árvore ou arbusto, por menor que fosse, o poleiro transformado em realidade distante, conseqüência funesta de pessoas caridosas que, em lugar de sacrificá-las no momento certo, preferiram mantê-las vivas, para castigo delas, das galinhas, afinal, criadas para vida curta.
