Do ponto de vista econômico penso que o dinheiro é uma convenção social. As pessoas aceitam dinheiro hoje com a expectativa de que todos o aceitarão amanhã. Assim, em sua essência, a confiança na moeda mantém o sistema monetário unido. Da mesma forma que ocorre com o sistema jurídico, essa confiança no dinheiro é um bem público. A manutenção da confiança no dinheiro é fundamental para o funcionamento eficaz das sociedades.
A confiança requer instituições sólidas que resistam ao teste do tempo. Instituições que asseguram a estabilidade da moeda como principal unidade de conta da economia, reserva de valor e meio de troca, e que garantem a segurança e integridade dos pagamentos. Entendo que em nosso país tanto a autoridade monetária (Banco Central), como os bancos que atuam no Brasil são sólidos. Verifica-se que é muito raro em nosso país, a ocorrência de dificuldades ou problemas com o sistema financeiro.
Neste quesito destaco que o papel de monitoramento do Sistema Financeiro Nacional é exercido pelo Banco Central do Brasil, mitigando as ameaças à estabilidade das instituições financeiras. Ressalte-se que o Banco Central tem acesso a informações detalhadas e abrangentes sobre o fluxo de dinheiro nas instituições do sistema financeiro.
Ao redor do mundo, os bancos centrais conseguiram se adaptar às mudanças tecnológicas, econômicas e sociais. É por conta disso que os bancos centrais estão se envolvendo ativamente com a inovação digital. Eles estão trabalhando em novos bens públicos do banco central, como infraestruturas de mercado financeiro no atacado, sistemas de pagamento rápido no varejo e moedas digitais de banco central.
Na atualidade, vivemos em um sistema baseado no mercado, sendo que o setor privado continua sendo o principal motor da economia. Dessa forma, no atual sistema monetário mundial, caracterizado pela existência de dois níveis, os depósitos são a forma mais predominante de dinheiro em poder do público, uma vez que o caixa é relativamente pequeno. Os bancos, por sua vez, colocam seus próprios depósitos no banco central como reservas bancárias.
Nesse caso, os bancos centrais fornecem uma plataforma aberta, neutra, confiável e estável. As empresas privadas usam sua engenhosidade e dinamismo para desenvolver novos métodos de pagamento e produtos e serviços financeiros. Essa combinação tem sido um poderoso impulsionador da inovação e do bem-estar.
Porém com a evolução digital, percebe-se algumas mudanças que estão alterando a essência do dinheiro como um bem público. E a literatura internacional aponta alguns cenários possíveis para o futuro do dinheiro, a saber:
1º cenário – as stablecoins de grande tecnologia competem com moedas nacionais e também entre si, fragmentando o sistema monetário. As stablecoins são moedas com baixa volatilidade. Stable, traduzindo-se para o português é estável, e coin na tradução para o português é moeda. As stablecoins tem como característica suas variações no mercado de criptomoedas, porque seus valores são vinculados a outros ativos, como moedas fiduciárias (dólar, euro, etc) e commodities – ouro é a mais comum;
2º cenário – a perspectiva de cripto e finanças descentralizadas, propiciando um sistema financeiro livre de intermediários e oferecendo opções diferenciadas;
3º cenário – a possibilidade de um sistema monetário e financeiro aberto e global que aproveita a tecnologia para o benefício de todos.
Entre os três cenários apresentados, destaco as Stablecoins de grande tecnologia. Stablecoins são criptomoedas que se baseiam em seu valor em garantias, geralmente na forma de depósitos em bancos comerciais ou outros instrumentos financeiros regulamentados. Elas possuem aderência com a credibilidade das moedas soberanas, registrando-se que as stablecoins sçao emitidas neste primeiro cenário por big techs ou grandes empresas cuja atividade principal são os serviços digitais.
Verifica-se que as grandes empresas de tecnologia fizeram contribuições importantes para que os serviços financeiros evoluíssem e com novos produtos e inovações foi possível que milhões de pessoas entrassem no sistema financeiro formal ao redor do mundo.
Para exemplificar esta evolução, aponto que na China, as grandes empresas de tecnologia são responsáveis por 94% dos pagamentos móveis.
Sobre o segundo cenário previsto para o futuro do dinheiro, verifica-se a ocorrência de uma elevada atração de entusiastas. Este é o cenário que incorpora o crescimento de criptomoedas e aplicativos que se baseiam nelas, como as chamadas finanças descentralizadas.
Registro que criptomoedas são moedas virtuais e no nosso país, a autoridade monetária (Banco Central do Brasil), sinaliza que moedas virtuais não são emitidas nem garantidas pelo Banco Central. Não têm garantia de conversão para moedas oficiais, como Real, e não são lastreadas em ativos reais de qualquer espécie. Seu valor decorre exclusivamente da confiança entre quem adquire e quem emite, e o risco pelas transações com moedas virtuais é exclusivo dessas pessoas.
Pelo que foi apresentado fica evidenciado que o futuro do dinheiro modifica bastante a funcionalidade do sistema financeiro e exige uma nova rodada de educação financeira para a sociedade, para melhor entendimento desse futuro.
