Não foi em uma roda de samba que eu a conheci, mas numa dos tempos juninos, em sítio nos arredores da urbe. Meus olhos ficaram grudados nela. Ainda a vejo, mais de sessenta anos vividos, as faces rosadas dos movimentos que fazia. Não sei quantos minutos a contemplei. Praticamente parei, para, de um lugar que não chamasse a atenção, pudesse apreciá-la, o coração se enchendo dela, no que, depois, procurei informações, chegando ao nome e residência.
Dos olhares, nos aproximamos, e, mais uma vez, não guardei detalhes de quando ela percebeu meu interesse e abriu a janela para responder aos meus acenos. A empregada da casa facilitou os encontros na praça da igreja, e, eu, aos nove anos, enfim, pude proclamar as nuvens, céus, sol, lua, estrelas e tudo mais do firmamento, que tinha uma namorada. Antes, duas paixões que não resistiram a um bolo de areia na testa e a uma reprimenda da professora. Agora, um fator positivo: a amada não era aluna da mesma escola onde eu estudava, e, como eu, precocemente, se despertava para um namoro, agindo como uma adulta, inclusive, como de costume, à época, me ofertando retrato, no jardim de sua casa, exatamente com o mesmo vestido da noite de São João. O troféu que lhe cabe é o de ter sido a primeira namorada, e, ademais, com o destaque de tê-la levado a minha casa para apresentar a mamãe, evidentemente acompanhada da empregada.
Os ventos foram favoráveis durante algum tempo. Depois, não encontrou espaço para circular. Não era fácil os encontros. Morávamos em ruas distantes, além da pouca idade. E, penso, sem vê-la por muito tempo, sem conversar, o ardor foi se diluindo, sem causar nenhum trauma, sem palavra de despedida, sem a caneta escrever no caderno de minhas andanças o final, que veio implicitamente. Depois, janeiros passados, na praça, a mesma praça chegamos a conversar, ela passou de mãos dadas com o namorado. Em seguida, a notícia do casamento realizado.
Muitos e muitos anos depois, ela esteve comigo. Um projeto que poderia encontrar meu apoio. Contudo, estava fora de minha área de atuação. Não pude atendê-la. Verdade que as faces não eram mais rosadas. Indaguei-lhe o motivo do pai ter permitido seu casamento tão jovem que era. A resposta: não tinha outra solução. Entendi. Era a lei daquele tempo. Não a vi mais.
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras
