ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 2:41:32

O relógio digital e seu destino

O relógio digital de meu quarto, depois de vinte e tantos anos de boas informações com relação às horas,  sobretudo durante a noite, foi devidamente destituído, sendo, de imediato, substituído por outro, ficando, por ora, sem nenhuma serventia.  É verdade que não teve direito a defesa. Nem se fazia necessário. A deficiência era mui gritante, na mania que adquiriu de girar mais do que o tempo. Traduzo: começou a se apressar, cinco minutos durante o dia, depois dez, culminando com trinta. Ficou difícil verificar o horário e ainda ter de fazer uma conta de diminuir a fim de saber o horário exato. Melhor tirá-lo da atividade. Já tinha dado o que podia. Hora de vestir o pijama, sem abrir a boca para qualquer reclamação.

O outro é mais novo. Estava encostado. Permaneceu um pouco no gabinete, mas, pelo dia não se via o horário que exibia. Pela noite, luzes acesas no recinto, não se fazia devido. De outro lado, o rádio deixou de tocar. Outros o foram substituindo. Com a retirada do relógio-digital do quarto, me lembrei dele. O trabalho foi só de localizá-lo, o que não me tomou muito tempo. E lá está bem instalado, a exigir a hora devida, sem pressa, nem vagareza, os números bem destacados quando a luz do quarto é apagada, certo de que, quando se tornar lento ou apressado, será regiamente destituído. Já está prevenido pelo que viu o que aconteceu com o outro.

Esse tipo de relógio depende da pilha ou da eletricidade. Há muito já se libertou da corda, do roc-roc que recebia, parecendo a manivela que se enterrava na frente dos veículos de antanho, fóbicas e não fóbicas, para o motor pegar.  Nos tempos da corda, vovô Zeca, de quem herdei a mania de ver as horas, tinha um estoque que a filharada alimentava. Ele, sem lembrar que já tinha dado corda, voltava a dar, um por um, eram vários, todos à vista dele quando estava na rede, até que o relógio cansava de tanta corda, e, sem poder pedir socorro, parava. Agora só o médico, digo, o consertador do relógio, profissional que, hoje, com os modelos atuais, deixou de existir. Relógio parou, não funcionou com pilha, não se perde tempo. Joga-se na lata de lixo.

Sou cultor das horas e escravo dos relógios. O celular marca as horas, mas não abro mão dos relógios, um dos quais, no braço. Acho que fui escalado para manter viva a mania de vovô Zeca.