Não sei exatamente a hora, porque não tive ânimo para verificar no celular. Sei que estava escuro, porque da brecha entre a parede e o telhado nada se via. O real é que fui acordado pelo canto do galo, intervalado, um có-cóóóó alto e vigoroso, como deve ser o canto de um galo de boa cepa. O sono me foi embora. Fiquei a ouvir a pouca sonoridade do canto, só me vindo a cabeça o adjetivo neurótico para acrescentar ao galo. Poderia ter ido até o galinheiro explica-lo que era muito cedo ainda para tocar sua corneta, que diversas pessoas dormiam por perto. Não fui. Achei normal que o galo em pé antes do sol aparecer. Afinal, galo e galinha dormem cedo. Antes do sol se por já estão agasalhados nos paus do galinheiro. Enfim, achei que minha presença no galinheiro poderia causar incômodo ao galo cuidando-se de seu harém de galinhas.
Então, me lembrei de um galo, na 13 de Julho, em quintal, que, lá de cima, do meu apartamento, de dia, eu procurava e não localizava. O diabo do galo cantava também fora do horário, antecipando o amanhecer do dia, como se tivesse sido contratado por alguém que precisava ir cedo para o trabalho, sem dispor de despertador em casa. Pensei em aconselhar ao dono, se eu tivesse localizado de onde o có-cóóóó partia, a levar o galo para um psicólogo. Acho que o galo teve outro destino, indo com o seu có-cóóóó e tudo para a panela. Me faltam dados para tanto. Ficou só a desconfiança, ante o silêncio que passou a reinar. O galo não teve sucessor.
Situação daqui é outra. Um sucede a outro. No galinheiro não falta galo. Um deles, me recordo, as penas retorcidas, como se fossem arrepiadas. O terreiro se encheu de pintos com o mesmo tipo de pena, sinal de que o galo era exímio reprodutor. Esse já se foi. Talvez por eficiência no trato com seu harém. De repente, o coração explodiu. Agora é o substituto, que ainda não vi, o mesmo có-cóóóó, em idênticas horas, sem respeitar o sono dos que estão perto, indiferente aos títulos nobiliárquicos de cada um, como a dizer que canta para suas galinhas, e não para as pessoas. O galo tem absoluta razão. Daí eu não ter reclamado, ficando essas linhas apenas como mero registro para encher o tempo, o meu; o do galo, ah, não, esse é tarefa das galinhas.
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras
