ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 0:32:06

O segredo das práticas camilianas

O padre queria ser o administrador da construção da igreja, que uma família erguia na segunda praça da cidade. A família não aceitou, na certeza de que o sacerdote, no fundo, queria colocar o numerário no bolso. A reação foi a sua interdição, numa época em que não se pensava em bater as portas do judiciário. A construção ficou abandonada, as paredes erguidas, com o consolo de aparecer em uma minguada fotografia da praça no começo do século passado. A família, contudo, não ficou calada. Foi a um jornal da Capital protestar, com um artigo, a expor a história, concluindo que o padre, em verdade, entendia era de práticas camilianas. Eu li a denúncia/desabafo. Fiquei na dúvida bulindo na cabeça com relação as práticas camilianas.

Pedi socorro a vários sacerdotes acerca do seu significado em termos de igreja católica. Todos foram unânimes. Não conheciam. Coloquei a história no baú do esquecimento. Contudo, um dia, o entrave veio à tona quando resolvi contar a mamãe, tim por tim. A sua manifestação me deixou espantado. Eu sei o que é. Não acreditei. Os padres não sabiam, como ela poderia saber? Ora, eu morei no sítio que foi do padre, e, nele ainda residia um empregado do tempo do sacerdote, chamado Vicente, já velhinho, com quem conversei muito, no que acreditei de logo, porque conversar, puxar histórias, indagar, cercar fato por fato, puxar a visão do cenário, obter e, ademais, memorizar e passar adiante, era com mamãe.

Afinal, o que significam as práticas camilianas? Ora, Camila era o nome da companheira do padre. E eu vi a foto do padre, no arquivo de Joaozinho Retratista, cabeça bem volumosa, sentado na varanda do sítio, ao lado dela e filhos, retrato que, à época, não dei o valor devido. O mistério estava desvendado. A sociedade tolerava o fato do padre morar com uma mulher, produzindo afilhados, como se dizia. Ocorrido conflito, jogavam o fato na cara, tornando-o público. O outro padre, jazendo numa cama, entre a vida e a morte, encheu a casa de filhos com uma escrava. Ainda hoje se depara com descendentes, pelo sobrenome composto passado. Tudo mamãe me contava. Theo, seu bisneto, revela ter herdado algo de sua memória. Saiu a dona Maria, observo ao ouvir de Helder as suas façanhas. E aí, não tem jeito, a saudade transborda.

                                    Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras