ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 4:08:14

Os quadros de vovó Brasília

Na casa de vovó Brasília, na primeira sala, raramente aberta, em meio a cadeiras de palhinhas e alguns moveis enfeitados de estatuetas de cerâmicas, o que me chamava a  atenção era o conjunto de quadros dos cinco filhos na parede. No centro, bem redondo, colorizado, o de tio Tonho. De um lado e de outro, agora em preto e branco, em tamanho menor e uniforme, os dos demais filhos, dois em cada lado. Estavam lá todos os cinco valetes, papai, tio Eladio, tio Biba, tio Tonho e tio Dema. Não havia quadros com fotos das três filhas, o que nunca me despertou a curiosidade de perguntar o motivo. Da sala, era o que me atraia a atenção.

Os quadros acompanharam a mudança de Itabaiana para Aracaju, nas quatro casas em que vovó morou, sempre no primeiro quarto, a mesma posição de antes, o de tio Tonho no centro, o cabelo bem penteado, a cor, que, da verdadeira, guardava distante semelhança. Os demais, em idade inferior a quarenta anos, fisionomias de jovens, tio Biba rindo, tio Dema sério, tio Eladio em posição de artista de cinema, e, papai, o olhar voltado para o fotógrafo, feição que não guardo na memória por ser de tempo anterior ao meu nascimento ou quando eu ainda era muito menino. Dos cinco, todos cultivavam a foto, no costume, da época, de ofertá-las aos parentes..

Em certa época, ainda estudante de Direito, tive a iniciativa de pedir a um fotógrafo amigo que fosse lá, na casa de vovó,  para fotografar o  quadro de papai. Foi providencial. Fiquei com uma cópia que, depois, gerou outras, em tamanho pequeno, e, uma delas, mantenho em meu gabinete. Os quadros, com a morte de vovó, já viúva, tomaram destino que não tomei conhecimento, ao lado de inúmeras fotos de filhos, netos e bisnetos que pendurava e pregava nas paredes da sala, onde o aparelho de televisão se localizava. Era o seu jardim de fotos.

Hoje, de quando em quando, revistando álbuns da família,  relíquias em meu poder, me deparo com fotos que serviram para a ampliação dos quadros. Volto, então, a vê-los pendurados na parede da primeira sala da casa de vovó Brasília, sempre com acrisolada admiração. Rostos que as fotos conservaram sempre jovens, hoje todos dormindo profundamente, como no poema de Bandeira, a assinalar um pedaço de vida que a curva do tempo deixou para trás.