Para alguns católicos, de cardeais a leigos, a renúncia do papa Bento XVI causou surpresa. Não sei a razão disso. Afinal, a renúncia do Sumo Pontífice está prevista no Código de Direito Canônico, de 1983, editado sob o pontificado de João Paulo II. Aliás, o próprio João Paulo II deveria, por razões de saúde, ter renunciado, mas, ele assim não o fez. Foi doloroso ver a situação final de João Paulo II, sem que tivesse, fisicamente, condições de continuar à frente dos destinos da Igreja. Quem poderá esquecer a sua última aparição, quando foi retirado às pressas da janela onde ele se dirigia ao povo?
Sem condições de enfrentar os graves problemas que afloravam em seu pontificado, embora alguns já viessem de longe, o papa polonês não renunciou. Uma verdadeira camarilha instalou-se ao redor do papa, para, à sombra das paredes vaticanas, danarem-se a fazer estripulias, as mais inominadas. Dentre os cardeais mais ligados a João Paulo II estava Josef Ratzinger, que, contudo, não fazia parte da camarilha tenebrosa. Eleito papa, Bento XVI não pôde debelar os infortúnios que aquela camarilha instalara no interior da Santa Sé. E, ao não se sentir com forças para combater e extirpar tantos malefícios daqueles purpurados inidôneos e de outros membros do clero, teve que renunciar. Nunca se deve esquecer o quanto alguns dos purpurados quiseram jogar Bento XVI, emérito, contra o Francisco, o papa argentino e inaciano, mas de coração franciscano. Deram com os burros n’água. Francisco incomoda-os.
A renúncia de Bento XVI, não pode ser comparada às renúncias anteriormente ocorridas: Gregório XII, em 1415; Celestino V, em 1294; e Ponciano, em 235.
Em 1415, o papa Gregório XII abdicou do cargo, depois de cinco anos no poder, durante o Cisma do Ocidente, conflitos entre Roma e Pisa, na Itália, e Avignon, na França, sobre a sucessão e o local de residência dos papas – solucionado depois da renúncia, em 1418, com o Concílio de Constança. À época, havia uma disputa entre três autoridades da Igreja que se auto-intitulavam papas. Uma situação inconcebível.
Celestino V renunciou em 1294, apenas quatro meses depois de empossado na Basílica de Santa Maria de Collemaggio, na cidade de L’Áquila, na região central da Itália. Por razões políticas e econômicas, Celestino renunciou ao pontificado em favor de Bonifácio VIII, de uma influente família italiana, os Gaetani.
No ano de 235, Ponciano foi exilado por um imperador romano e, para que os fiéis não ficassem sem um líder, renunciou ao papado. Foi sucedido por Antero.
De acordo com o Código de Direito Canônico, o papa pode renunciar ao cargo desde que a renúncia seja feita livre e manifestadamente. O ato não precisa ser reconhecido por nenhum tipo de autoridade ou entidade.
Quando Bento XVI deixou o papado, em fevereiro de 2013, sua decisão causou comoção na Igreja Católica por se tratar da primeira vez que um papa renunciava ao cargo em quase 600 anos. Mas, Joseph Ratzinger justificou sua saída citando as “rápidas transformações” do mundo e sua “idade avançada”, que o privavam de forças para exercer o cargo para o qual os cardeais o elegeram em 2005. Bento XVI foi humilde e corajoso.
As denúncias de centenas de casos de pedofilia dentro da Igreja ou os conflitos com o Banco do Vaticano, que vêm de décadas, podem parecer conflitos graves para um papa, porém, muito mais grave, sem dúvida, é a desordem gerada por alguns purpurados, os da velha guarda, cada qual com seu “espaço de poder”, a fazer e desfazer, como se cada um deles quisesse ter a sua própria cátedra de Pedro. Não pode!
Um diplomata de cuja amizade eu privo, desde o fim da década de 1970, agora aposentado, disse-me, recentemente, que um desses cardeais, falecido há pouco tempo usava uma cruz peitoral cravejada de esmeraldas. Ele até o cognominou de o novo “Fernão Dias Paes Leme”, o nosso bandeirante caçador de esmeraldas. Esse cardeal de não saudosa memória, foi um dos mais terríveis purpurados a se mover nos bastidores da Igreja, desde o tempo de João Paulo II. De acordo com o meu amigo diplomata, que é sergipano, são indizíveis as estripulias desse purpurado, falecido em 2022. Por que estou abordando isso? Porque, conforme o mesmo diplomata, que serviu em Roma, muitos cardeais tiveram, a contragosto, que se sujeitar à simplicidade de Francisco, trocando suas majestosas cruzes peitorais por cruzes mais simples.
Dizem em Roma que para os cardeais da velha guarda, “tudo deve mudar, para que tudo permaneça igual”. Com Francisco isso não pegou. Ele vem mudando. Para melhor.
Bem. Francisco poderá renunciar? Especula-se. Ao menos, as renúncias de bispos em todo o mundo, têm ocorrido, algumas vezes por razões de saúde, outras por casos os mais diversos, mormente os que envolvem aspectos de má gestão ou de moralidade. Na ocorrência de fatos que tais, desses, daqueles ou daqueles outros, não deve restar outra medida a não ser a renúncia. De qualquer forma, a Igreja não deve passar por problemas causados pelos que estão na sua hierarquia. A Igreja não merece passar por isso. As renúncias, de bispos ou do próprio papa, quando for o caso, devem ocorrer quando for para o bem da Igreja. Sempre.
