Na segunda predição feita por Nosso Senhor acerca da paixão, morte e ressurreição que Lhe aguardavam, conforme o Evangelho de Marcos (cf. Mc 9,30-37), percebemos que, brevemente, o Evangelista, situando-nos no espaço e na circunstância, expõe-nos que, afastado com os discípulos, o Senhor lhes ensinava com lições que comportavam também – e, sobretudo – a dimensão salvífico-pascal.
Porém, no que pensavam os discípulos enquanto Jesus lhes dava tão grave ensinamento? Como estavam a aproveitar aquela profundíssima e magnânima aula? Estavam os discípulos a fazer justiça à sua condição de aprendizes do Divino Mestre? Claro que não, porque estavam, na rivalidade, a discutir sobre quem dentre eles seria o maior, o mais opulente. Estavam aqueles homens a desperdiçarem a oportunidade de aprender, com Jesus, o Seu ensino de imolação e entrega a Deus e à Sua Igreja. E, de São Tiago, que participou daquele episódio vergonhoso a querer um posto de destaque, agora amadurecido pela experiência da fé nas provações, explicitará o que as concorrências de diversas ordens entre os fiéis gera na vida da Igreja: “Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más” (Tg 3,16).
Ousemos, ainda, refletir mais: de onde vêm a inveja e a rivalidade? Com certeza, da nossa vaidade, da soberba, da arrogância e prepotência… enfim, das filhas do orgulho que, tantas vezes, o homem nutre no seu coração. Saibamos sempre que Jesus chamou discípulos, para aprenderem o caminho da santidade, e não santos já prontos. Isto lembro para que nos aventuremos a aprender de Cristo o caminho da inocência, da pequenez, da humildade e da servidão a Deus e aos irmãos, tal como o Senhor nos aponta quando, chamando uma criança para o meio daqueles que encrencavam por status meramente humanos, dizia-lhes: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher está acolhendo não a mim, mas àquele que me enviou” (Mc 9,37).
E o que quer dizer o verbo “acolher” presente neste versículo? São Jerônimo, doutor da Igreja que viveu entre os séculos IV e V, comenta que, com tal termo, o Senhor exorta aos discípulos, por causa da malícia que possuíam, “a serem também como crianças […] a conservar a simplicidade sem arrogância, a caridade sem inveja e a devoção sem raiva”. Creio, ainda, que o próprio Jesus esclarecerá, quando os discípulos se indignaram com Tiago e João porque sua mãe pediu ao Senhor lugares de honra para eles: “Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão” (Mt 20,25-28). Logo, o caminho da verdadeira grandeza não é outro, mas o do serviço. Para tanto, faz-se necessário o apequenar-se.
A lógica do cristianismo contrasta-se – e muito – com a do mundo. O que ensinam por aí a fora é o diferente da escola de Jesus: busca-se um sucesso para esta vida, com os seus atrativos e interesses; esquece-se de não fomos criados para esta realidade terrena, onde tudo é passageiro e banal, pois apenas passamos por ela. Por isso é que o cristianismo é odiado e marginalizado com a sua linguagem de renúncia, de desapego e de sacrifício. Por isso é que os “deformadores de opinião” põe a doutrina cristã como ultrapassada ou falida. Por isso, enfim, que o cristianismo, em Cristo Jesus, é indefectível, dando alento verdadeiro – porque verdadeiro é o que prega – ao coração de quem busca vivê-lo autenticamente.
