ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 5:03:04

Réquiem para Dona Nair

Dona Nair amava a Vida. A Vida amava Dona Nair. As duas se transformavam em uma só. O espinho do óbito de Pedro se transmudou em saudade, tornando-se mais leve. Fora daí, só pétalas que o seu caminhar espalhava pelo chão, animada, disposta, transformando tudo numa festa, a passagem do aniversário natalício, a missa em ação de graças, a foto que distribuída, a fidelidade aos amigos, o respeitoso tratamento concedido a todos, a solidariedade aos parentes dos que se mudavam para outra dimensão, tudo se aliando num arsenal de ações que, mercê da idade sempre avançando, aos poucos, transforma Dona Nair em memória viva da história urbana de Nossa Senhora da Glória, ela, em si, patrimônio maior dessa história, a história que vivia em sua privilegiada memória, a escolhida, ontem, muito ontem, por Pedro Alves Feitosa, para ser sua esposa.

 

O Tempo, ah, o Tempo assistia calado a movimentação de Dona Nair. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, a Morte, ponto de igualdade entre ricos e pobres, entre feios e bonitos, surgiria, manhosa e paciente, a espera de uma fenda para abraçar Dona Nair, certa que todo mundo tem de passar por suas garras. Mas, a Morte, ela mesmo, ainda envergonhada com a precoce retirada da vida de Pedro Alves Feitosa, concedeu a Dona Nair o direito de viver por ela e por Pedro Alves Feitosa, como se ela avançando pelo tempo prolongasse a vida dele, ao ver que Dona Nair só sepultou o corpo, ficando com a alma do marido no coração, levando-o com ela ao se deslocar para qualquer lugar, em Nossa Senhora da Glória e fora dos limites de Nossa Senhora da Glória,

 

Daí a explicação para a longevidade de Dona Nair, que ao ingressar, aos poucos, na fase da decadência física, afinal, eram dois corpos que carregava em um só, as pernas não equilibravam o peso, a voz a perder o volume, tornando-se baixa e incompreensível, a fisionomia se alterando, o cabelo cada vez mais ganhando a cor de neve cinzenta, até que, sem mais se comandar, numa madrugada, a Morte considerou seu compromisso encerrado e se fez presente, parando um coração que, durante mais de um século, bateu celebre por dois corações. Dona Nair do Cartório completava sua missão e se retirava, saindo da vida para fazer parte integrante da história de Nossa Senhora da Glória, deixando nas filhas, netos e bisnetos a dor da perda, o orgulho de terem encontrado origem em suas entranhas, a honra de carregarem nas veias o sangue dela, de serem dela descendentes diretos, de Dona Nair do Cartório, que, pela importância, a Academia Glorense de Letras foi buscá-la no recanto de seu lar para se tornar um seu membro fundador, que Euvaldo Lima, em Nair Aragão Feitosa – uma notária registradora à frente do seu tempo [2019] contou-lhe a vida em versos, livro lançado quando Dona Nair ainda estava entre nós e do livro teve consciência plena, ela e Pedro Alves Feitosa bem jovens, a olhar a lente do fotógrafo, e, assim, quem teve a curiosidade de repassar a vista para os arredores da casa de Dona Nair, deve ter visto um jovem casal, ele em terno costurado por alfaiate, ela, elegantemente vestida, de mãos dadas, bem felizes, a desaparecer em meio a algum nevoeiro, por caminhos que o olho humano nunca há de perceber qual é.

 

Eu, juiz de direito de Nossa Senhora da Glória, a conheci como escrivã do 1º Ofício, e minha saída, um ano e meio depois, para a de Campo do Brito, não cortou a nossa amizade, a se prolongar pelo tempo. Algumas vezes estive em sua residência, em Nossa Senhora da Glória, a última quando já estava na cadeira de rodas, a voz baixa, a dificuldade de entender o que dizia. Não a vi nos últimos anos, e duas fotos delas, já nas vésperas da última viagem, me deixaram perplexo ante a transformação que o tempo e a idade plantaram. A pandemia me impediu de lhe prestar a devida homenagem, no seu sepultamento, no que faço, agora, com essas linhas, misto da minha admiração e saudade, na certeza de que a minha passagem pela comarca de Nossa Senhora da Glória se inscreve pela honra que carrego de, ali, ter conhecido Nair Aragão Feitosa.