Terminada a apuração, o candidato derrotado é entrevistado. Agradece aos amigos e compadres o voto prometido que não foi dado. A alusão era direta e nominal, passando na cara os favores feitos e a palavra não cumprida. Outro, lavou roupa suja em público, mandando o ocupante de uma casa sua desocupá-la. Fosse morar na casa do vereador votado, seu ingrato. A divulgação dos votos, seção por seção, é pior que filme de suspense para quem se arrasta de sufrágio aqui e ali, a apuração chegando ao final e o número de votos sem sofrer aumento. É o antônimo de barco furado, este cada vez mais se enchendo de água. Não há como fugir da decepção.
Eleição é assim. Em uma dessas, nos idos, apenas três seções, a vitória com boa diferença nas duas primeiras, até que abriram a terceira urna. O grupo, que ganhava, fez cálculos e foi comemorar antecipadamente no primeiro bar. Ficou só um para presenciar a apuração. Quando este apareceu, todos, para lá de Bagdá, estranharam a cara de defunto. O adversário revertera o resultado. O impossível – que nem os especialistas em eleição de município pequeno puderam conceber – aconteceu. A chapa antagonista: noventa e nove por cento dos votos. Vitória por um só voto. Seguiram na cervejada, agora, movidos pela tristeza da derrota.
Para o eleitor, uma fonte de renda. De dois em dois anos, há quem venda o voto seu e o da família, umas cinco pessoas, dinheiro que é empregado na aquisição de carneiros, que, soltos no pequeno espaço de terras, vão se criando. Um ano depois cada um é vendido, o eleitor esperando a próxima eleição chegar para, outra vez, negociar os votos de sua casa, um por um, multiplicando a quantia pelo número de pessoas. No dia é só receber o número do candidato, como antes o fazia com a cédula. Não se registra a compra e venda em nenhuma escritura.
Mas, reconhecemos, eleição é divertida. Digo, aliás, a propaganda. As promessas do que cada um vai fazer, quando eleito, um mar todo cor de rosa é exibido, os problemas do país resolvidos, nossos direitos vão ser defendidos, o diabo a quatro. Só não ouvi ninguém dizer que a inflação vai acabar, que os alimentos na feira livre vão cair, e assim por diante. O interesse do candidato-promitente é ser eleito. Lá, em Itabaiana, se diz: farinha pouca, meu pirão primeiro.
