Tobias late porque vê, ao longe, não muito longe, um sapo. Não sei se o sapo ouve o latido, e, também, se lhe dá alguma importância. Acredito que não. Mas Tobias é briguento, se acha dono do mundo, e, no território onde pisa, se considera dono. Nariz curto, feição de quem está sempre irritado, não cansa de disparar seu protesto em direção ao sapo.
De minha parte, que assisto, sem controlá-lo – graças a todos os bons deuses – Tobias está amarrado em um poste, sem condições de ir além de um ou dois metros. O sapo é letal, e disso nós sabemos, lembrando da tragédia de Reni, que, incomodada porque um sapo se dirigia ao seu prato, partiu em cima dele, valente que não era, um mar de mansidão, e o sapo jogou-lhe um veneno, Reni procurou o colo de mamãe, e logo, logo, o olhar fixo em sua dona, como se pedisse socorro, morreu. Mamãe contava e chorava.
Disso me lembro. No dia seguinte, último dia do ano, chegando em casa, mala na mão, estranhei a falta de alguma coisa. Era de Reni, que sempre me esperava na porta para balançar a calda. Ricardo, ainda pequeno, me disse que a cachorrinha que mordia tinha morrido. Joguei a mala no chão e acelerei o passo. Mamãe cuidava do canteiro. Ao vê-la, perguntei que história era aquela. Mamãe começou a chorar. Choramos ambos. A alegria do ano novo, que no outro dia, chegava, perdeu o colorido. Deu lugar a um bocado de lágrimas, de todos.
Ficou o medo do sapo. Respeito ao veneno que carrega. Levou Reni, pequinês, xodó de toda casa. Papai anotou o óbito: Reni morreu em 30 de dezembro de 1970. Sepultada no quintal, não sei se na mesma noite, ou no dia seguinte, quintal, que, aliás, serviu de túmulo para Bob, o primeiro, depois Lord, filho, Reni, e, adiante, Bolinha e Pretinho, estes gatos. Algum tempo depois, Musa, e, por último, final da dinastia do pequinês, Mirucha. Tento passar os fatos para Tobias, mas ele não escuta. O sapo, distante, numa sombra que o arbusto provoca. Tobias não corre perigo. Preso a um poste está livre do veneno do sapo. Continua arrogante. Latindo, até não sentir mais o cheiro do anfíbio. Se estivesse solto teria morrido no contato com o sapo. Como aconteceu com Reni. De lágrima de cão morto por veneno de sapo, nunca mais.
