Gregório Mão de Figa não comia merda porque fedia. Assim se dizia em cada canto da cidade. Homem de aparência miserável, vivia com uma roupa surrada, por vezes de pés descalços, parecendo um pedinte do mais deplorável possível. Viúvo sem filhos. Agiota dos mais antigos da cidade. E, segundo se calculava, o mais afortunado dos agiotas de Belo Monte do Menino Jesus, que não eram muitos. Aliás, eram contados em menos do que os cinco dedos de uma mão: o próprio Gregório, Adamastor do Belenzinho, Virgílio Manso e Joca do finado Tertulino Coice de Jegue. Quatro. Os conhecidos.
Depois da morte de Dona Tereza, sua esposa, Gregório passou a viver sozinho, no casarão que fora edificado por Anastácio Borba Fustel, seu bisavô, que, segundo a tradição, era descendente de judeus. Ao certo, porém, não se sabia. O povo era dado a muitas invencionices. O casarão da antiga Rua do Tolete, que passou a chamar-se Rua Afonso Carvalho, em homenagem a um prefeito tido como salafrário, vivia caindo aos pedaços. Fora, no passado, nos tempos do bisavô, do avô e do pai de Gregório, lugar de festas e reuniões políticas. Naquele fim de ano, o que restava intacta era a sombra projetada em dias ensolarados.
Em Belo Monte do Menino Jesus ninguém jamais ouviu dizer que Gregório Mão de Figa estendera a mão a alguém necessitado fosse lá do que fosse. Ele fazia conta de um centavo de troco em qualquer venda ou barraca de feira, onde, por acaso, comprasse alguma bugiganga. Fazia questão de um níquel, de uma nica por menor que fosse.
Certa feita, na capital, para onde Gregório fora tratar de assunto que só a ele dizia respeito, dera de cara com Roque de Belarmino Cego, escrivão do cartório do registro civil. Gregório comia um pão seco, no meio da rua principal do comércio. Zombeteiro, Roque indagara: “Mas, ‘seu’ Gregório, o senhor comendo um pão seco no meio da rua…! Não tem vergonha disso, um homem apatacado como o senhor”? A resposta saiu de chofre: “Então, Roque de Belarmino, o que você esperava? Que eu comprasse uma casa na capital, só para comer um pão dentro dela”? Este era Gregório.
Entrava ano, saía ano, e Gregório Mão de Figa era o mesmo. Resmungão, pechincheiro, mão mais fechada do que fiofó de sapo, que um caminhão passava por cima, mas só botava as tripas pela boca. Pelos fundilhos, jamais. Um homem que não vivia. Apenas vegetava. Sem parentes diretos para quem deixar a calculada fortuna. Calculada, diga-se bem, pelo populacho. Comentava-se que Gregório deveria ter bem do seu, cerca de 50 milhões de cruzeiros novos. O ano corrente era 1968. Ano endiabrado para o país. Uma fortuna! Para quem haveria de ficar tanto dinheiro? Para o governo? Ele o deixaria para alguma instituição de caridade, logo ele, que não dava uma casca de siri poder a ninguém? O seu único irmão morrera picado por uma cobra dois dias antes do casamento com a filha de Fernandinho dos Araçás. A pobre moça meteu-se num convento e notícias dela a cidade nunca mais tivera.
Gregório tinha uns primos, mas não herdeiros de valimento, pela linha reta. Eram da linha colateral já meio entortada. Não tinha um afilhado que o pudesse ter como filho do coração. Não tinha um amigo que o aconchegasse no imo do peito. Não tinha uma distinta senhora com quem pudesse partilhar coração e colchão. Não tinha ninguém. Era possível que até a solidão corresse dele.
Numa manhã calorenta de dezembro, antevéspera do Natal, Gregório, mais suado do que pano de cuscuzeiro, estava a afiar uma faca de cozinha, na pedra de amolar, no quintal do casarão, debaixo de uma mangueira. Lá de fora, ouviu uma voz rouca, masculina, pedindo uma esmola. Das mãos de Gregório, um naco de pão jamais fora dirigido a alguém. Nunca, em toda a sua vida de quase noventa anos, um cristão ou um herege fora alvo de uma bondade da parte dele, por menor que fosse.
A voz ressoou mais uma vez, lá na frente do casarão. “Uma esmola, pelo amor de Deus”! Os ouvidos moucos por conveniência de Gregório não eram capazes de ouvir o apelo de quem de lá clamava. Terceira vez. Quarta. Quinta. Sexta… E tantas outras mais.
Enjoado de tanto ouvir aquela lengalenga, Gregório levantou-se, quase caindo. Entrou no casarão aos pedaços, tão carente de recuperação, atravessou salas de mobílias antiquíssimas, algumas carcomidas pelos cupins. Chegou à sala de visitas, que ainda guardava resquícios dos tempos do bisavô, tido como judeu. Retratos descascados nas paredes. Um vistoso candelabro de sete pontas. Um porta-chapéus de madeira de lei e outros trecos antigos.
O Mão de Figa entreabriu a porta de cedro, que rangeu forte. “O que você quer aqui, seu traste”? Indagou, rabugento, como era de costume. “Uma esmola, um pedaço de pão que seja, para matar a fome deste menino”, disse o pedinte, apontando para uma criança de cerca de dois anos de idade. Gregório atirou longe uma cusparada, mais parecendo uma cagada de pato. Olhou para o menino, que lhe sorriu, inocentemente, estendendo-lhe a mão. Olhou para o homem. Tornou a olhar para o menino, que, de novo, sorriu e estendeu a mãozinha suja. “Como é o seu nome, menino”? O menino respondeu: “Jesus”! Gregório caiu em prantos.
JOSÉ LIMA SANTANA
PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL, ASLJ, ASE, ADL, ABLAC E IHGSE
