ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 4:06:18

Vovô Zeca – reminiscências

Preso em casa, a partir de certo momento, o mundo de vovô Zeca ali se circunscreveu. A rede no quarto, a ida ao banheiro, pela manhã, em dois e três banhos, porque esquecia que já tinha tomado um e novamente se banhava, a ida a mesa, onde não dispensava, meio dia, carne de porco. No final de vida, quando não comia toda a carne que colocava no prato, tinha o cuidado de devolver a panela, vovó Brasília de olho, para, no dia seguinte, requentada, alertar a quem estava na mesa que daquele prato não fizesse uso. Era sobra de vovô Zeca. Depois do café, o cuidado de colocar cuscuz com leite numa xícara a fim de levar para a gaiola do papagaio, costume que, ainda menino, em Itabaiana, presenciei, voltando a ver a mesma cena quando, no Aracaju, me hospedava em sua casa, o mesmo cuidado reiterado religiosamente.

Vovó Zeca era a repetição de gestos e de atitudes. O sentar, à noite, na calçada, charuto na boca, lata de leite ninho ao lado para colocar as cinzas, a cabeça erguida, o olhar atento a tudo ao seu redor e ao que passava a sua frente. Primeiro, ouvia a Hora do Brasil, a atenção com o noticiário para repassar depois, numa época em que a abertura democrática começava a ser decantada pelo regime militar. Evidentemente que, ao comentar o que ouvia, depois, e eu muito ouvi, a crítica ferina ao regime era exposta. A calçada, à noite, a cadeira de pano, a cabeça sempre erguida.

Do Aracaju, aproveitou a Rua João Pessoa, quando a saúde permitia. De terno de linho branco chuviscado, do Santo Antonio para o centro comercial ia de ônibus, se enturmando com pessoas da idade, aposentados, conhecidos ou gente nova que passava a conhecer. Não cheguei a vê-lo ali, o que lastimo. Quisera ter presenciado ele numa roda ouvindo e soltando o verbo. Me contento em tê-lo visto retornado a casa, uma ou duas vezes, se despojando do paletó.

Presenciei, em parte, a decadência de sua saúde, o veneno da ironia se esvaindo, o interesse pela Hora do Brasil indo para o ralo, a obsessão pelas horas desaparecendo, e, também, a velha ojeriza pelo futebol. Dele herdei muitas manias, das quais, ainda hoje, não abri mão. Além da obsessão pelas horas, a de inserir comentários no livro finda a leitura, no que acrescentei o grifar as frases que me despertam atenção. Aí, sem querer, o sinto a comandar os meus gestos.