Durante décadas, o cigarro convencional foi tratado com condescendência pela ciência e pela indústria: levou um século até que o governo americano reconhecesse formalmente, em 1964, que fumar causava câncer de pulmão. Agora, pesquisadores alertam que o mundo pode estar repetindo o mesmo erro com os cigarros eletrônicos, os chamados vapes.
Uma revisão científica publicada nesta semana no periódico Carcinogenesis, liderada por pesquisadores da Universidade de New South Wales (UNSW), em Sydney, concluiu que o uso de vapes provavelmente provoca câncer de pulmão e câncer bucal. O estudo é uma das análises mais abrangentes já realizadas sobre o tema, reunindo evidências de estudos em animais, relatos clínicos e pesquisas laboratoriais publicadas entre 2017 e 2025. As informações são do jornal The Guardian.
A revisão não chegou a calcular quantas pessoas podem desenvolver câncer por causa dos vapes — o histórico de uso ainda é curto demais para isso, já que os cigarros eletrônicos modernos só surgiram no início dos anos 2000. Além disso, muitos usuários de vapes também fumam cigarros convencionais, o que dificulta isolar os efeitos de cada hábito.
O que os pesquisadores fizeram foi diferente: avaliaram se a inalação do vapor de cigarros eletrônicos provoca no organismo as mesmas alterações biológicas conhecidas por anteceder o surgimento de tumores malignos, entre elas, danos ao DNA e processos inflamatórios crônicos. A resposta foi afirmativa.
“Não há dúvida de que as células e os tecidos da cavidade oral, a boca e os pulmões são alterados pela inalação de cigarros eletrônicos”, afirmou ao The Guardian o professor Bernard Stewart, coautor do estudo e pesquisador adjunto da UNSW.
A revisão também incorporou relatos de dentistas que identificaram câncer bucal em pacientes que nunca haviam fumado cigarros convencionais, apenas vapes. E mencionou um experimento com camundongos no qual os animais expostos à fumaça de cigarros eletrônicos desenvolveram tumores pulmonares em proporção maior do que os não expostos, embora resultados em animais nem sempre se repliquem em humanos.
A comparação com o tabaco e os limites do debate
O coautor Freddy Sitas, epidemiologista e professor associado, lembrou que foram necessários quase 8 mil estudos e um século de evidências acumuladas para que os Estados Unidos reconhecessem oficialmente o cigarro como causa de câncer. Segundo Calvin Cochran, pesquisador da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, esse processo histórico deveria servir de alerta.
“Corremos o risco de repetir o mesmo destino com o vaping se não levarmos a sério as pesquisas emergentes e os sinais de alerta”, disse Cochran. Para ele, não haverá um momento único e definitivo em que se possa cravar que o vape causa determinado tipo de câncer. Essa conclusão está “anos, provavelmente décadas, à frente”.
Nem todos os especialistas, porém, compartilham do mesmo grau de preocupação. O professor Stephen Duffy, da Universidade Queen Mary de Londres, ponderou que seria um “excesso de interpretação” equiparar os riscos dos vapes aos do cigarro convencional com base nesta revisão, uma vez que os cigarros eletrônicos não envolvem combustão, processo que libera substâncias altamente cancerígenas no tabaco comum.
Stewart, por sua vez, argumentou que o vape precisa ser avaliado pelos seus próprios riscos, e não apenas em comparação ao cigarro. “Não é uma alternativa ao cigarro… Não é alternativa a nada no contexto de ser mais seguro. É perigoso, e essa é a mensagem”, afirmou ao The Guardian.
Um ponto central da pesquisa é justamente o público que nunca teve contato com o tabaco. A professora Becky Freeman, pesquisadora de controle do tabagismo na Universidade de Sydney, destacou que o estudo é o primeiro a afirmar que há um aumento provável no risco de câncer para quem usa vapes em comparação a quem não usa nenhum produto e que isso é especialmente relevante para jovens que jamais fumaram.
“O vaping não é uma alternativa segura ao cigarro para não fumantes”, disse Freeman ao The Guardian.
Sitas também chamou atenção para uma dificuldade prática: ao contrário do cigarro convencional, para o qual existem recursos terapêuticos consolidados, como gomas de nicotina e medicamentos específicos, as estratégias para ajudar as pessoas a abandonar o vape ainda são inconclusivas.
O que dizem os reguladores
O estudo surge em um momento de crescente pressão sobre autoridades sanitárias ao redor do mundo. Na Austrália, onde a pesquisa foi conduzida, a legislação já restringe a venda de cigarros eletrônicos a farmácias, com acesso permitido apenas para quem os utiliza como ferramenta de cessação do tabagismo.
Para Sitas, os reguladores precisam agir com base no conjunto de evidências disponível, sem aguardar uma conclusão científica definitiva que pode demorar décadas. “O que é importante é que os reguladores tenham à sua disposição o espectro completo de evidências”, afirmou ao The Guardian.
O caminho traçado pela pesquisa australiana não aponta para uma proibição imediata, mas para uma mudança de postura: tratar o cigarro eletrônico não como uma alternativa inócua ao tabaco, mas como um produto com riscos próprios. Ainda em investigação, mas já suficientemente documentados para exigir atenção regulatória.
Fonte: Época Negócios







