Em crise financeira, os Correios encerraram o ano de 2025 com um prejuízo de R$ 8,5 bilhões. Em 2024, o resultado havia ficado negativo em R$ 2,6 bilhões. A estatal acumula 14 trimestres consecutivos de rombo nas contas, o que teve início no quarto período de 2022. Os dados foram detalhados nesta quinta-feira (23) pelo presidente da estatal, Emmanoel Rondon, que informou que os números ainda vão “demorar um pouco a melhorar”.
“De onde está vindo esse resultado? Primeiro, é uma parte de queda de receitas, de R$ 2,3 bilhões. Ela acontece, o primeiro fator importante é o ciclo vicioso. A dificuldade de caixa afeta fornecedores, a operação, macula a capacidade de aumentar volume e novos contratos. Mas R$ 2,3 bilhões não explicam R$ 8,5 bilhões”, disse Rondon, ressaltando que a receita segue estável em termos nominais, mas que isso precisa ser melhorado.
Outro ponto relevante, de acordo com o presidente, é o aumento das provisões para passivos judiciais, medida que busca dar mais transparência ao balanço da estatal ao reconhecer despesas que antes não estavam integralmente registradas. Ele também citou a pressão dos reajustes salariais vinculados à inflação, garantidos por lei, e a rigidez da estrutura de custos da empresa. Com despesas majoritariamente fixas, os Correios têm dificuldade de ajustar gastos diante da queda de receita, o que contribui para o desequilíbrio financeiro.
“Ela (despesa geral) não para, a estrutura de custos é muito rígida, com característica de custos fixos. Quando cai, não conseguimos fazer o ajuste. Tem reajuste salário pela inflação com tese judicial consolidada”, disse.
A empresa afirmou que o principal gasto que explica o resultado do ano passado é o pagamento de precatórios, que são despesas decorrente de decisões judiciais. Além disso, a receita bruta em 2025 foi de R$ 17,3 bilhões, 11,35% menor que a do ano anterior.
Em nota, os Correios afirmaram que o maior fator isolado da queda de receita foi a redução de 65,6% nas encomendas internacionais, provocada por mudanças nas regras de tributação sobre importações de baixo valor – conhecida como “taxa das blusinhas”. No total, as receitas com encomendas caíram 0,5%.
“Esses números refletem pressões estruturais de longo prazo. O volume de cartas caiu de forma irreversível com a digitalização. O e-commerce cresceu, mas exige uma operação diferente, com entregas menores, mais dispersas e mais caras. Os Correios estão se adaptando a essa realidade, ampliando serviços logísticos, financeiros e de atendimento ao cidadão nas agências”, disse a estatal.
Empréstimo de R$ 12 bilhões
No fim do ano passado, os Correios conseguiram fechar um contrato de empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia do Tesouro Nacional, que foi depositado quase totalmente no dia 30 de dezembro.
Para tentar driblar a crise, a empresa passa por um processo de reestruturação. Porém, uma das principais apostas da estratégia de recuperação econômica, o plano de demissão voluntária (PDV) da empresa encerrou com a adesão de cerca de 3 mil funcionários, segundo o balanço parcial da estatal.
O número alcançado representa apenas 30% da meta de desligar 10 mil trabalhadores do quadro para economizar R$ 1,4 bilhão de despesas com pessoal a partir do próximo ano. O PDV teve a duração de cerca de dois meses.
“A adesão, a nosso ver, não foi baixa. Lançamos um PDV com prazo curto para poder ter tempo de avaliar o desempenho”, disse Randon.
Apesar desses números, o presidente da empresa considera o PDV um “sucesso”.
“O PDV foi um sucesso, gerou um desligamento robusto, gera uma economia substancial para companhia”, disse. “A gente tem 40% de impacto em termos de resultado financeiro”.
Outra medida que já está em curso é a venda de imóveis ociosos, cuja expectativa ao final é levantar R$ 1,5 bilhão. Os leilões começaram em fevereiro, em fase de teste. Os resultados ficaram dentro do esperado, mas as propriedades participantes eram menores e a arrecadação foi de R$ 9 milhões, cerca de 20% do valor ofertado.
Os Correios ainda estão promovendo mudanças no plano de saúde dos funcionários, que é mantido pela estatal. Só em janeiro houve uma economia de R$ 70 milhões. A meta para o ano é de R$ 700 milhões.
Recuperação de receitas
No âmbito das receitas, a principal linha de atuação por enquanto é a regularização das operações, de modo a aumentar a qualidade do serviço. O primeiro passo foi a negociação de dívidas, que já chega a 98%. Também está sendo implementado gradualmente pelo país um novo modelo de rotas de distribuição.
O índice de entrega no prazo ainda está aquém da meta de 96% em nível nacional – foi de 80,55% em fevereiro. Mas 14 estados já bateram ou estão muito próximos do alvo, como São Paulo, Minas Gerais, Alagoas, Tocantins e Roraima. Na ponta oposta, os piores índices são de Bahia, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Mesmo assim, a conclusão é que a recuperação das receitas está em linha com o plano de reestruturação.
A empresa ainda está discutindo com o Conselho de Administração o valor do novo empréstimo que será pedido ao mercado. Há uma avaliação de que será necessário menos do que R$ 8 bilhões para prover liquidez para a operação até o fim do ano que vem.
Esse é o valor máximo autorizado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para empréstimos com aval da União para estatal este ano. No fim do ano passado, conseguiu fechar um contrato de R$ 12 bilhões com um grupo de cinco instituições financeiras.
Fonte: O GLOBO





