Produzida de maneira artesanal, a queijadinha de São Cristóvão é reconhecida como um patrimônio imaterial que reúne séculos de história, tradição e identidade cultural. A receita atravessa gerações, mantendo viva uma herança que remonta ao período colonial. Entre os principais nomes ligados a essa prática está Dona Marieta, da Casa da Queijada, referência na cidade. O que confere ainda mais significado à queijadinha é todo o processo de preparo, especialmente o uso de um molde específico, transmitido ao longo do tempo dentro da mesma família.
Até pouco tempo, existia apenas uma peça desse tipo, já bastante desgastada pelo uso contínuo e pela ação do tempo, o que colocava em risco a continuidade dessa tradição. Foi durante uma visita à Casa da Queijada, em São Cristóvão, que a equipe do Tiradentes Innovation Center (TIC), da Universidade Tiradentes (Unit), percebeu as condições do molde utilizado na produção do doce. A visita ocorreu dentro de uma agenda de aproximação com a Prefeitura, iniciada após um encontro com representantes do município.
A partir desse contato, surgiu a proposta de digitalizar e reconstruir o molde, assegurando a preservação da tradição. De acordo com o presidente do TIC, Domingos Machado, a solução envolveu o uso da tecnologia conhecida como “gêmeo digital”, que permite criar uma versão virtual de um objeto físico para reprodução fiel. Com base nisso, o molde foi recriado em laboratório, mantendo suas características originais e seu valor simbólico.
“Levamos o molde ao laboratório, realizamos todo o processo de digitalização e conseguimos reconstruir, com fidelidade, essa peça tão significativa. Caso o molde original se perca, parte dessa história também desaparece. São detalhes que vão se perdendo com o tempo. Nosso objetivo não é substituir a tradição pela tecnologia, mas utilizá-la como aliada para fortalecê-la”, explica Domingos.
Tradição preservada com apoio da academia
A reconstrução da peça demandou um processo técnico minucioso. Sem a utilização inicial de scanner, a equipe precisou iniciar o trabalho manualmente, como relata o técnico de inovação Jerônimo Oliveira. “Utilizamos o molde original como base e começamos com medições manuais, registrando tudo em rascunhos, como diâmetro, proporções e detalhes. Em seguida, iniciamos a modelagem digital. O modelo foi sendo aperfeiçoado gradualmente, sempre comparando com o original para garantir fidelidade. Realizamos testes com papel e cortadora a laser para validar as proporções. Depois, avançamos para a impressão em 3D. A primeira versão não ficou ideal, mas a segunda já apresentou grande melhoria. Na terceira, alcançamos um resultado completamente fiel”, explica.
Para o diretor de Relações Institucionais, Valter Santana, a iniciativa demonstra, na prática, como a tradição e a inovação podem caminhar juntas. “A academia tem um papel fundamental nesse processo. Sabemos que o município vem, ao longo dos anos, fortalecendo a aproximação com as instituições de ensino. A universidade é um espaço que projeta o futuro sem deixar de valorizar o passado. Além disso, a Unit está aberta não apenas à inovação, mas também à formação das novas gerações, sempre respeitando a cultura e promovendo avanços”, destaca.
O fato de São Cristóvão ser a primeira capital do estado é reconhecida como a cidade-mãe de Sergipe reforça o compromisso com a preservação de suas tradições. Para o prefeito Júlio Nascimento, esse protagonismo histórico também se reflete na abertura para iniciativas que integram cultura e inovação. “São Cristóvão é uma cidade rica, e o que nos diferencia é justamente esse patrimônio histórico, cultural e arquitetônico, além da nossa economia e dos nossos artistas. Precisamos conectar essa riqueza à inovação, entendendo como ela pode potencializar o que já existe. É muito gratificante ver a cidade retomando esse protagonismo. Ao longo da história, fomos pioneiros em muitas áreas, mas parte disso se perdeu”, afirma.
Um legado que continua
Para Dona Marieta, o novo molde vai além de uma ferramenta de trabalho, representando a continuidade de uma tradição familiar. “Isso é muito importante para mim, porque não se trata apenas de um molde, mas de uma história que vem de muito tempo, desde a minha bisavó, que iniciou essa tradição da queijada na nossa família. Esse conhecimento vai sendo passado de geração em geração, sempre com muito cuidado e carinho. Esse molde faz parte de toda essa trajetória. Ver ele sendo recriado dessa forma me deixa muito feliz. Agora tenho mais segurança para continuar meu trabalho e repassar isso adiante. É uma maneira de manter viva a história da minha família e das minhas raízes”, compartilha.
Por: Laís Marques
Fonte: Ascom Unit





