- 13/08/2019 - 17:08

“E a família, como vai?!”

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro.

A questão familiar é uma preocupação pertinente e permanente em toda a Igreja de Cristo. Sempre os pastores e ministros da Igreja defenderam e preservaram a instituição ‘família’, por enxergar nela uma dignidade e – por que não dizer?! – uma sacralidade inalienáveis. À realidade familiar endossa-se tudo quanto o Evangelho propõe.

O Papa São João Paulo II, com justiça, chama a família de Igreja Doméstica porque reconhece nela um meio eficaz de levar o homem a Deus através do amor, doação, união, reciprocidade e tantos outros sentimentos que permeiam um sadio lar. Esta Igreja doméstica não deve ser indiferente à única Igreja do Senhor, mas participa desta como núcleo, reprodução do amor entre Cristo-Esposo e Igreja-Esposa que, no amor, geram filhos. São João Paulo II ainda foi mais além, ao dizer que a família é geratriz das vocações na Igreja, fazendo-nos entrever que a preocupação para com ela não deve ser somente dos cônjuges, mas de todos os cristãos, já que, todos, dela procedemos (seja ela devidamente estruturada ou não); todos somos inseridos neste primeiro núcleo social e eclesial.

Na Campanha da Fraternidade de 1994, a Igreja no Brasil, percebendo as vicissitudes enfrentadas pelas famílias, lançou reflexões intituladas “E a família, como vai?!”. O texto-base, dentre tantas considerações, informava-nos as alegrias e cruzes da família no termo do século XX. Eis que se passaram vinte e cinco anos daquela Campanha. Ousamos perguntar: “E a família, como vai?!”. Não precisamos de muitos estudos delineados em gráficos para constatar que a situação familiar enfrenta maiores adversidades do que há mais duas décadas. Pode parecer que a situação até mesmo piorou. E quais são os vilões? Somos capazes de adiantar um: a família tem se esquecido de um membro imprescindível: Deus; e a partir Dele tudo quanto ao Ser Divino faz referência, a religião, os valores, enfim, tudo quanto foi querido por Deus para uma harmoniosa relação familiar.

O Papa Francisco, no primeiro ano de seu pontificado, reuniu-se com as famílias que peregrinaram a Roma por ocasião do Ano da Fé num encontro intitulado: “Família, vive a alegria da fé!”. Dentre tantas coisas, afirmou o Romano Pontífice: “[…] escutei as vossas experiências, os casos que contastes. […] E então surge-nos a pergunta: Como é possível, hoje, viver a alegria da fé em família? Mas eu pergunto-vos também: ‘É possível viver esta alegria, ou não é possível?’”. E prossegue: “[…] aquilo que pesa mais do que tudo isso é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser benquisto. Pesam certos silêncios, às vezes mesmo em família, entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, a fadiga torna-se mais pesada, intolerável. Penso nos idosos sozinhos, nas famílias em dificuldade porque sem ajuda para sustentarem quem em casa precisa de especiais atenções e cuidados. […] Queridas famílias, o Senhor conhece as nossas canseiras: conhece-as mesmo! E conhece os pesos da nossa vida. Mas o Senhor conhece também o nosso desejo profundo de achar a alegria do lenitivo. […] esta é a primeira coisa que quero partilhar convosco […], e é uma palavra de Jesus: Vinde a Mim, famílias de todo o mundo – diz Jesus –, e Eu vos hei de aliviar, para que a vossa alegria seja completa. E esta Palavra de Jesus levai-a para casa, levai-a no coração, compartilhai-a em família. Convida-nos a ir ter com Ele, para nos dar, para dar a todos a alegria”.

Com firme certeza, se grandes são os desafios a serem enfrentados pela família contemporânea, muito maior é o unguento, o remédio, o alívio para elas. Tomemos a família que é espelho para as demais: o Santo Lar de Nazaré. Será que a Sagrada Família tinha uma vida mansa? Não é isto que nos fala o Evangelho. Mas, o Verbo vindo habitar em uma família, tomando para Si um lar, ainda que especial, quer incutir nas pessoas, nos membros da família, a luz que ele trouxe e que dignifica a instituição familiar, construção de amor. E por que não ir mais além em afirmar que a família humana, a Igreja doméstica, é também porta de salvação integral da pessoa? Por acaso não participa do sacramento universal de salvação chamado Igreja? A sua instituição não provém do Senhor quando oferece o Sacramento do Matrimônio, que contribui para com a criação divina e para a manifestação do amor de Deus? Se a salvação abrange o homem integralmente, uma família estabilizada no Evangelho levará o homem, em todas as suas dimensões (físicas, psíquicas, sociais e espirituais), a Deus.

Com estas brevíssimas palavras, neste segundo domingo de agosto, em que rememoramos, em especial, o dia dos pais e a vocação familiar, espero ter encorajado a todos para que sejam as mãos, a voz, o olhar da Igreja para as nossas famílias, os nossos jovens, as nossas crianças, idosos, pais e mães.