Maria, Saúde dos Enfermos

Em vista de, na próxima quarta-feira, 08 de dezembro, toda a Santa Igreja celebrar a Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, ainda na travessia de mais um ano difícil à saúde humana pela pandemia, desejo refletir com o estimado leitor sobre a Virgem Maria, intitulada em sua ladainha “Saúde dos Enfermos”, aprofundando-nos na maneira de como a Senhora Santíssima exerce esse cuidado tão precioso para cada um de seus filhos.

Quando pensamos neste título memorável da Mãe da Saúde, de imediato, remontamo-nos, primeiramente, à saúde física, a do corpo. Porém, o patrocínio da Virgem Imaculada principia pela alma, aquela dimensão imorredoura e, portanto, eterna do ser humano.

No seu aspecto fisiológico, referindo-me à fragilidade do nosso corpo, valho-me do que afirma São Paulo, ao escrever aos coríntios, em relação a sermos portadores da graça divina: “Trazemos esse tesouro em vasos de argila” (2Cor 4,7). Sim, somos vasos de argila, com o diferencial da espiritualidade, que nos inspira a uma potencialidade maior: aquela que vem de Deus. Um vaso de barro pode partir-se facilmente. Porém, pode ser recomposto sem muito trabalho. Imaginemos como a misericórdia divina, quando do nosso alquebrar, nos restaura; porque somente ela tem esse poder.

Refletindo sobre a misericórdia de Deus em nós, o Papa São João Paulo II, numa de suas primeiras falas como Romano Pontífice, afirmou: “Os filhos, quando estão doentes, têm mais um motivo para serem amados por sua mãe. E também nós, se estamos feridos pela malícia, por andarmos fora do caminho, temos mais um motivo para sermos amados pelo Senhor” (Ângelus, 10.11.1978). Perceber o patrocínio daquela a quem chamamos “Saúde dos Enfermos” é reconhecer a modalidade materna do amor grandioso de Deus por nós.

Todos estamos sujeitos a doenças e enfermidades, sejam as da alma como do corpo. E, se denominamos o Senhor Jesus Cristo como “Divino Médico”, não olvidemos de denominar a Sua Mãe como Saúde dos Enfermos, como a bendita “Enfermeira” a quem fomos confiados pelo tão grande Médico. E, tal como a enfermeira deve estar próximo ao terapeuta e ao convalescente, estabelecendo a relação e o cuidado entre ambas as partes, aos pés da cruz de seu Filho e Deus, ela apresenta as nossas mais diversas dores, sofrimentos e queixas a Jesus, e traz-nos o lenitivo, o alívio, o remédio da nossa salvação. Maria, humana como somos, sabe o quanto estamos sujeitos às nossas muitas limitações, ainda que a Virgem tenha sido preservada da nódoa do pecado original.

Sim, a Virgem da Saúde é a mesma Senhora do Calvário; do Calvário de Cristo ao calvário de cada filho seu, nunca a nos desamparar. Disse o Papa Bento XVI que “o Sinal da Cruz é a suma da nossa fé, e fazendo-o com o coração atento, entramos no pleno mistério da nossa salvação” (Audiência, 17.09.2008). Se o fato de traçar o Sinal da Cruz é tão importante, quão não será a grandiosidade de, simultaneamente ao que a traçamos em oração, em oração contínua, vivermos o mistério da Cruz do Senhor no mistério do nosso calvário pessoal? A Cruz, como ainda disse Bento XVI, “recorda-nos que não há amor verdadeiro sem sofrimento; não existe dom da vida sem dor” (Ibidem). Estar na escola de fé de Maria é fazer as lições do mistério das dores do Calvário, reproduzidas na lousa da nossa própria existência, porque também a doença deve ser mais uma prova do nosso amor para com Deus, tal como Ele, em Cristo, fez conosco.

Neste momento, o meu pensamento se dirige a tantas vidas ameaçadas pela COVID-19 e por tantas outras moléstias destes últimos tempos. Algumas que até sucumbiram pela morte… Será que lhes faltou os cuidados da boa Mãe, a Virgem Imaculada? Claro que não. Se fôssemos mensurar o zelo de Nossa Senhora apenas para os assuntos deste mundo, seria ele muito pouco. O remédio, a saúde que Maria Santíssima nos apresenta é o Seu Filho, o nosso Salvador. Aqui, recorro a origem da palavra “saúde”, do latim salus, isto é salvação. Ela no-Lo apresenta porque tudo na vida do cristão só tem sentido, origem e fim no Cristo. Ela no-Lo aponta para que, seguindo-O, não careçamos de mais nada, porque, possuindo-O, temos o bastante, temos tudo.

Penso também naqueles que sepultaram os que amam: Maria Imaculada igualmente passou por isso com o seu Filho morto. Porém, a mesma Virgem da Saúde é a Mãe da Esperança. E como “a esperança não decepciona” (Rm 5,5), Cristo consola-lhes: Ele mesmo é a nossa esperança (cf. 1Tm 1,1). Penso ainda nos diversos profissionais da saúde, “bons samaritanos”, que se redobram e se desdobram física, emocional e espiritualmente para a assistência dos doentes e dos seus familiares como importantes instrumentos nas mãos de Deus. Se o Senhor promete ser magnânimo com quem oferece um copo d’água aos Seus discípulos (cf. Mt 10,42), o que não dará como prêmio aos que aliviam as Suas dores nos sofrimentos dos que estão debilitados?

No desejo de sermos inteiramente de Deus, confiemo-nos a Maria. Tão cuidadosa Mãe preparar-nos-á, em todos os sentidos, para que compareçamos da melhor maneira diante do Trono da divindade. E, diante das diversas mazelas que podem nos atingir, recorrendo a ela, escutemo-la dizer o que reclamou a São Juan Diego, em sua aparição de Guadalupe: “Meu filho, nada te aflija. Não estou eu aqui que sou a tua Mãe? Não estás tu sob o meu amparo? Não sou eu vida e saúde? Não estás no meu regaço e sob a minha proteção? Tens necessidade de outra coisa?”. Portanto, prossigamos no carregamento das nossas cruzes, sempre unidos ao nosso Redentor e validos por aquela a quem, devotamente, bradamos “Saúde dos Enfermos”.

Autor

Pe. Everson Fonseca

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