- 22/10/2018 - 18:29

O desserviço da concorrência e da ambição

Após ter dado a grande revelação do Mistério Pascal, da Paixão, Morte e Ressurreição que, dentro em breve, o aguardaria, o Senhor Jesus, em mais uma ocasião, nos ensina, atravessando a Galiléia, ao rumar para Jerusalém, onde deverá ser entregue para a nossa Salvação, que, para se chegar à glória, se tem que passar, necessariamente, sobre a “Via Crucis” do sofrimento.

“O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará” (Mc 9,31). A este anúncio estarrecedor, os discípulos, que estavam em plena formação para o apostolado, para continuarem a missão do próprio Senhor, encarnando-a, receavam perguntar, ainda que nada entendessem. Mas, por que não perguntavam? Aquele assunto espinhoso, com certeza, tirava-lhes a paz. Quem sabe até se perguntavam no seu íntimo: “Será que vale a pena saber disso, já que seguimos Deus Salvador? Logo Ele que promete um Reino? Não seria exagero seu? Algo que, apenas, aconteceria consigo?”. Creio, que isto se passava na cabeça daqueles que, nos caminhos da Galiléia à Judéia, eram formados pelo Divino Mestre, quiçá, desejosos de uma felicidade para esta existência, ou, se para a eternidade, com caracteres desta vida de aparências, que prima pelo poder de opressão, de compostos de vaidade, de soberba.

O Senhor, que sonda pensamentos e corações, ao chegar na intimidade do Seu lar, naquele local que, com toda justeza, poderíamos chamar de ‘Seminário’, onde o coração dos futuros Pastores da Igreja era conformado ao Seu, faz-lhes uma pergunta retórica, já que sabia, muito bem, sobre o que falavam: “O que discutíeis pelo caminho?” (Mc 9,33). Jesus  queria uma forte motivação para ensinar-lhes uma lição igualmente forte. E São Marcos pontua: Eles, “porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior” (Mc 9,34). Palavras faltam quando o fato é mais que evidente.

Percebam a gestualística do Mestre. “Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!’” (Mc 9,35). O Senhor senta-se porque tem autoridade no assunto e quer ensinar-nos. Esta lição que o Senhor Jesus dará aos Seus, que consiste em instruí-los sobre o serviço, Ele o exemplificará em tantos outros momentos de Seu ministério, mais exatamente nas curas, nas libertações, nos esclarecimentos, no perdão dado, no Lava-pés, e, de maneira estupenda, no Calvário pela Sua Cruz. Ele, o Servo Sofredor; Ele o impelido pelo Espírito Santo para ser o missionário do Pai na missão de servi-Lo, servindo a humanidade (cf. Lc 4,18-19).

Para o serviço, há que se ter um coração simples, puro, inocente, pueril. Por isso, o Senhor põe, em meio aos discípulos concorrentes, uma criança, e sentencia: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou” (Mc 9,37). E o que tem haver o coração serviçal com uma criança? Digo-lhes: é preciso que sirvamos aos pequenos do Reino, vendo nos vulneráveis a pessoa de Deus. Deveremos fazê-lo gratuitamente, sem segundas intenções, sequer de gratidão; desinteressadamente, porque, tal como uma criança que não dispõe de provimentos, os pequenos do Reino não têm como retribuir o que “emprestamos a Deus”. É neste sentido ainda que, com as suas práticas catequeses, São Tiago dirá: “Onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más. Por outra parte, a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento” (Tg 3,16-17).

Que Deus nos livre de toda e qualquer ambição!