“Eis que lhes apresento Jesus!”

No início do seu Evangelho, São Lucas, dirigindo-se a um misterioso “Teófilo”, cuja etimologia do nome designa “aquele que é amigo de Deus”, dirige-se a todos nós. E, a partir de sua experiência com o Cristo, exorta-nos a que, pela fé, façamos o mesmo, criando uma intimidade com o Senhor. Pelo que se sabe, São Lucas não teve nenhum contato histórico com Jesus. Entretanto, isto não impediu que, pelo ardor do espírito, se aproximasse Dele, deixando-se cativar por Sua mansidão.

“Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra. Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo” (Lc 1,1-4). As primeiras linhas do Evangelho de São Lucas provam-nos que o crido foi, antes, recebido dos Apóstolos, daqueles que foram testemunhas visuais, auditivas, sensoriais do Senhor. Mas, não bastou receber. Também, com o seu caráter investigativo, foi conhecido, vasculhado por São Lucas; e, após a sua constatação, proposto como transmissão, como anúncio. Este é o processo da fé: recebemo-la da Igreja, a testemunha fiel de Cristo, a Sua Esposa, como fé apostólica. E a recebemos desde o Santo Batismo e renovamo-la todas as vezes em que escutamos o testemunho da Igreja, Mãe e Mestra, acerca do Senhor.

Recebemos a fé como um tesouro a ser conservado em nosso coração, desenvolvido, tal como a dinâmica explicitada pelo Senhor quando nos fala da Parábola dos Talentos (cf. Mt 25,14-30). E, após ter recebido, vasculhado, desenvolvido pelo debruçar-se sobre as verdades eternas proclamadas, sobretudo, pela palavra da Igreja, somos incumbidos de anunciar, de propagar esta mesma fé (que chamamos Católica e Apostólica), irradiando-a.

A partir desta irradiação, emprestamos a nossa voz e o nosso testemunho à Igreja, para que sejam também dela. E para os outros, como uma proposta libertadora de vida, de alvitre de transformação interior, que nos incute às virtudes, fazer com que percebam igualmente a solidez, a veracidade da fé que abraçaram. Por isso, São Lucas concluirá a destinação do seu Evangelho, afirmando: “Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lc 1,4). Mas, quais características do Senhor São Lucas resgata como cativante de seu próprio coração e as deseja apresentar aos seus leitores? Qual testemunho ele nos quer oferecer? Vejamos em seis características!

A primeira: Jesus é o Cristo, o Ungido. Pleno do Espírito Santo, Jesus veio para anunciar o Evangelho da Salvação, libertando a todos, proclamando o ano da graça do Senhor (cf. Lc 4,18-19).

A segunda: Jesus é manso. Dante Alighieri, grande escritor italiano, autor da Divina Comédia, chamará São Lucas de “scriba mansuetudinis Christi” (escritor da mansidão de Cristo). Assim, no terceiro Evangelho do cânon bíblico, percebemos tantas parábolas referentes à misericórdia divina, bem como o ordenamento de Jesus: “Sede misericordiosos como misericordioso é o vosso Pai celeste” (6,36). São Lucas assim traduz a perfeição divina pelo dado da misericórdia. E se quisermos ser perfeitos, o caminho não é outro, senão o da misericórdia.

A terceira: Lucas sublinha a alegria de Deus pelo retorno do pecador ao seu convívio. Esta característica é bastante ressaltada no decorrer do capítulo 15, onde lemos a Parábolas da ovelha e da moeda perdidas e a do filho pródigo e do pai misericordioso, por exemplo.

A quarta: o Senhor tem predileção pelos pobres, os pequenos do Reino. São Lucas reconhece que foram para estes que Jesus foi enviado. Pobres não de bens necessariamente; mas, antes de tudo, de coração. Observa ainda como modelos de vida em seu Evangelho o pobre Lázaro e a viúva que tudo deu do que tinha. Apresenta como modelo a ser afastado o jovem rico, que, para não se desfazer dos seus bens, preferiu não seguir Jesus, descuidando-se do verdadeiro e único bem. E explicita a afirmação do Senhor: “Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar o camelo pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (18,24-25).

A quinta: Jesus é o orante por excelência. Por estar sempre em diálogo com o Pai, representando o que, essencialmente, acontece no seio trinitário, São Lucas enxerga Jesus nos momentos de contato com o Pai, e expõe-nos esta constante nos momentos decisivos da Sua vida: depois do Batismo (3,21); quando a sua fama crescia dado as curas e os ensinamentos (5,16); antes da eleição dos Doze (6,12); antes de constituir Pedro Príncipe dos Apóstolos por sua confissão de fé (9,18); antes da Transfiguração (9,28-29); antes de ensinar-nos o Pai-Nosso (11,1); na agonia do Getsêmani (22,40-46); e na sua entrega final ao Pai: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (23,46).

Por fim, São Lucas vê a proposta de Jesus à renúncia, pretendendo que os Seus seguidores façam uma escolha radical, sem arrependimentos, por Ele. E isto não o propõe como uma exigência alheia à Si, mas aos que querem segui-Lo, observa que nem Ele mesmo tem onde reclinar a cabeça (cf. 9,58). E muitos, entendendo tal chamado, abandonaram-se no Cristo porque abandonaram tudo (cf. 5,22). Por isso ainda diz: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína?” (9,23-25).

Tudo isto cativou o coração de Lucas, de maneira que, o que ele descobriu pela fé, deseja, igualmente, que todos o descubram e o abracem. Se nos apaixonamos pelo Cristo, impossível será querermos que Ele fique apenas conosco. Antes, queiramos também que, conosco, os outros sejam “Teófilos”, amigos de Deus.

Autor

Pe. Everson Fonseca

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