ARACAJU/SE, 16 de maio de 2026 , 22:41:51

Empregada torturada, coroinha estuprada e o diabo a quatro

 

Os episódios sórdidos da vida cotidiana brasileira alastram-se, mas já não assustam mais, posto que eles se tornaram figurinhas carimbadas como pragas terríveis a enlamear a vida social, econômica e política. Mundo miserável o dos artífices desses sórdidos episódios, na vida pública ou privada.

Como se não bastassem as diabruras que encontramos em todas as esferas do Poder Público, aqui ou ali, a sociedade brasileira parece, em parte, estar voltando à barbárie e à banalidade do mal, como diria Hannah Arendt. O divisionismo político chegou à raia da loucura, de lado a lado. Até uma marca de detergente está na crista da onda, nos últimos dias. Quanta besteira! E o Banco Master rendendo confusão.

Mas, o que quero abordar hoje, vem de outras situações grotescas, banais, espúrias, reprováveis. Depois do que ocorreu com o cão Orelha, em Santa Catarina (alguém sabe o que aconteceu com quem causou a morte do cão?), as pessoas foram se esquecendo do fato horrendo. Temos memória curta, ou nem a temos?

Voltemos a outro fato monstruoso, qual seja o assassinato do cacique Pataxó Galdino Jesus dos Santos, ocorrido em 20 de abril de 1997, em Brasília, após cinco jovens de classe alta atearem fogo nele enquanto dormia em um ponto de ônibus na Asa Sul. O crime, motivado por “diversão” e justificado como “brincadeira”, gerou comoção nacional e se tornou um símbolo de combate à violência indígena e ao preconceito no Brasil. Cadê aqueles jovens? Que penas cumpriram? Em que se tornaram?

Há poucos dias, um jovem estudante de direito, em Belém (PA), molestou um morador de rua, sendo o ato molestador filmado por outro estudante. O que aconteceu a ambos? Imaginemos, perto ou longe de nós, quantos atos grotescos ocorrem no dia a dia.

Agora, no Maranhão, uma empresária torturou a empregada doméstica, grávida, por conta do “sumiço” de um anel, achado, depois, entre roupas sujas. Pior: um policial, amigo da patroa, participou da cena de tortura e maus tratos contra a moça. A patroa confessou em áudio para as amigas o que fez e como fez. Depois, tentou dizer que teve um surto psicótico. Provavelmente, essa é a linha de defesa de seus advogados. Pífia. E as contradições entre a patroa e o policial infame, por meio de seus depoimentos?

Não fosse a agitação das mídias, exigindo a devida apuração do fato, o que poderia ocorrer com a patroa e o policial? Nada? Talvez. Patroa reincidente pelo que se tem apurado. Empregadas domésticas têm sofrido nas mãos de patroas ensandecidas.

Em uma Diocese do interior de São Paulo, um padre foi temporariamente afastado de suas funções como pároco, dia 6 deste mês, acusado de estuprar uma menina, coroinha. Deu-se o afastamento após a condenação do padre, em primeira instância, a seis anos de prisão. Esperou-se a decisão judicial para afastar o padre? Ora, quantos casos desse tipo e de tantos outros, de abusos morais e sexuais, ainda vão acontecer, no seio da Igreja, ao tempo em que padres e bispos passam a mão sobre as cabeças de padres desse tipo, que enlameiam a Igreja e constrangem outros clérigos e leigos, quando realmente são culpados? Até quando isso vai acontecer? Que corporativismo insano é esse? Essas pessoas, infratores e acobertadores, creem mesmo em Jesus Cristo? E não me venham para cá com desculpas esfarrapadas. Chega de patifarias! Basta de atos criminosos!

Há muitas outras situações vexatórias, ainda que de menor grau. Como admitir, por exemplo, que um padre mande sair da fila da comunhão uma senhora com idade superior aos 70 anos, inclusive mãe de outro padre, porque a mesma estava usando um vestido com alças, envergonhando-a publicamente? Por que não a chamou em particular, se fosse o caso? E, pior, repetir a dose, na missa seguinte, mesmo a senhora estando com um xale sobre os ombros? Isso foi aqui. Ah, se fosse a minha mãe! Ah, se fosse! O pau teria quebrado, feio. Há padres que estão escondendo suas mazelas debaixo dos panos, porém, sabe-se muito bem que panos se rasgam. E como se rasgam!

Finalizando as apreciações desta semana, a sociedade aracajuana perdeu Clara Angélica Porto, que partiu no último domingo. Clara foi uma destacada colunista social, ainda na adolescência, e teve atuação em vários movimentos sociais e culturais da nossa capital. Com ela, eu mantive contatos, nos últimos anos. Fomos, eu e ela, chamados, de forma grosseira, de terroristas por uma autoridade estadual, em face de nossas posições sobre o abastecimento de água. As nossas visões antecipadas acabariam dando panos para as mangas, e o povo vem sofrendo sérias consequências. Água é vida.

Clara, nós não somos terroristas. Fomos realistas. E acredito que, agora, você está, com sua luz, na essência da LUZ.