Olívio Breu

Na manhã em que Francisquinho Breu matou cinco pessoas, da mesma família, papai apanhou de vovó Brasília. Foi ver as vítimas, colocadas numa casa, vizinha a onde foi, ou ainda é, a padaria de Heleno. A curiosidade do fato, inédito aos seus olhos, até então, lhe fez caminhar entre os cinco mortos. A roupa ficou com visíveis respingos de sangue, a merecer a reprimenda materna. Vivia-se os últimos anos da década de vinte.

Não conheci Francisco Breu. O que sei é de ouvir dizer, e, muito por Olívio Breu, um dos seus inúmeros filhos, a contar como tudo se deu em sua inteireza, a desavença entre a família dos mortos e o seu pai, a ameaça das vítimas de que iam matá-lo. E ele, sabendo, resolveu se antecipar. O rifle foi conservado como relíquia. Está no poder do neto Rivas. Levado a júry, foi absolvido, considerando que não estava em plenas faculdades mentais quando atirou. Olívio Breu completava que o que sobrou da família dos mortos – salvo engano, a matriarca se chamava Maria Quitéria -, saiu de Itabaiana, não retornando nunca mais. Francisquinho Breu continuou sua vida de sempre, um homem de bem, respeitado por todos, absolvido plenamente pela sociedade local. Viveu sossegado, repousando no Cemitério das Almas de Itabaiana, do lado direito de quem entra, na frente, digamos, da avenida central.

Olívio herdou do pai o apelido Breu. Cultivou uma olaria por muitas décadas, encantando-se, depois, com uma propriedade rural. Homem de seu tempo, modesto, sem ambições, formando, ao lado de d. Dalva, um quinteto de filhos, todos na letra R: Rivadálvio, Rivanda, Rivaldo, Ronaldo e Rivalda. Talvez tivesse pensado que os nomes iniciados por R se esgotara, e, aí, a produção teve seu final. De netos, cada filho se encarregou de aumentar a família com dois, a exceção de Rivalda. De um deles, Ícaro, meu afilhado, me ficou a cena do avô com ele, bem pequeno, no colo, se balançando na cadeira, com a missão de fazê-lo dormir. Contudo, quem pegava no sono era o avô, enquanto o neto se segurava em suas orelhas. O compadre Totoca contava e eu caia na gargalhada. Efetivamente, a  cena era hilariante.

Fui vizinho de Olívio Breu. E nesta condição, lhe dei de presente uma neta, a única que não tinha seu sangue. Apenas a amizade e o amor que lhe devotava. Levada por Maria Breu [saudades!], Iana passou a ser da casa. E aí, no seu vocabulário, a sua família foi acrescida de Vó Dalva [saudades!], Dinha [Rivanda], tio Tonho [Totoca, também saudades], tia Marcinha, tia Rivalda, tio Ronaldo, todos a quem pedia a abençoa e, de vô Olívio, no Natal, a regalia de ganhar as festas, traduzidas numa cédula de alguns cruzeiros.

A notícia da morte de Olívio Breu, no esplendor dos noventa e oito anos, balançou meu coreto.  Em Olívio Breu vi Iana ressurgir, pequena e forte, a se utilizar da sua casa como se fosse sua, o sofá, que mal se deitava, já começava a dormir. De Iana que, ao saber da morte de tia Maria Breu, desabou em lágrimas.

Acredito que, sepultados todos no Cemitério das Almas de Itabaiana, estão, outra vez, unidos, a relembrar fatos aqui vividos.  Maria Breu, das compras; vó Dalva, do cuidado de conservar as guias da Previdência Social, que pagava mensalmente; tio Tonho, das façanhas do sábado, pela manhã, quando, na casa dos sogros, beliscava carne assada com farinha, uma boquinha antes do almoço; Olívio Breu, de sua motocicleta, a se dirigir a olaria, lá na entrada da cidade, e, entre eles, ao lado de Tia Maria, Iana,  das caminhadas que faziam juntas, batendo todo o comércio central de Itabaiana.

De tudo, então, a certeza de ser uma página que foi lida, a retratar fatos que ficaram para trás, o tempo, que desfolha as rosas, a transformá-los em saudades, puras saudades …

Autor

Vladimir Souza Carvalho

Outras Notícias